No último texto, conversamos sobre como a ansiedade pode se manifestar fisicamente. Coração acelerado, alterações na respiração, tensão muscular, dores, desconfortos gastrointestinais e dificuldade para dormir são alguns exemplos de como aquilo que vivemos emocionalmente pode repercutir no corpo.
Mas existe também o caminho inverso: será que cuidar do corpo pode ajudar um organismo que permanece constantemente em estado de alerta?
Hoje sabemos que a dor é uma experiência complexa. Ela não depende apenas de músculos, articulações ou de uma lesão específica. O sistema nervoso, o sono, o estresse, as experiências anteriores e o estado emocional também podem influenciar a maneira como percebemos e respondemos à dor.
Isso não significa dizer que “a dor está na cabeça”. A dor é real. O que mudou foi nossa compreensão sobre os inúmeros fatores capazes de influenciá-la.
Dentro da fisioterapia, algumas abordagens procuram justamente ampliar esse olhar.
RPG: postura, respiração e fáscia
A Reeducação Postural Global (RPG) utiliza posturas terapêuticas progressivas, alongamentos globais, controle respiratório e trabalho sobre as cadeias musculares.
Na prática clínica, é muito comum observarmos pessoas submetidas a períodos prolongados de estresse apresentando dificuldade para relaxar, respiração mais curta e aumento da tensão muscular, principalmente em cervical, ombros, mandíbula e coluna.
Nesse contexto, o RPG pode ir além da correção postural. O trabalho sobre a respiração, a mobilidade, a consciência corporal e as tensões musculares e fasciais pode contribuir para diminuir a sensação de rigidez e dor.
A fáscia, aliás, deixou de ser considerada apenas uma estrutura de sustentação. Hoje sabemos que é um tecido ricamente inervado e envolvido na transmissão de forças e na percepção de estímulos mecânicos e dolorosos. Por isso, o trabalho fascial é uma área que vem despertando crescente interesse científico.
TME: Terapia Manual Evolutiva
A TME propõe um olhar ainda mais integrado para o paciente. Por meio da terapia manual e da avaliação corporal, procura identificar padrões de tensão e relacioná-los ao contexto em que os sintomas apareceram.
Um aspecto interessante é observar não apenas onde dói, mas quando aquela dor começou, o que estava acontecendo naquele período e se existem situações que fazem o sintoma aparecer ou se intensificar.
Esse raciocínio se aproxima da visão atual de que o contexto influencia a experiência da dor. Estresse persistente pode interferir no sono, na tensão muscular, no sistema nervoso autônomo e no próprio processamento dos estímulos dolorosos.
A TME, entretanto, ainda carece de estudos clínicos específicos que comprovem muitos dos mecanismos propostos pelo método. Por isso, deve ser compreendida como uma abordagem complementar dentro de uma avaliação mais ampla.
Microfisioterapia: olhando além do local da dor
A Microfisioterapia utiliza palpações sutis e específicas e propõe identificar alterações da mobilidade dos tecidos, buscando estimular mecanismos de autorregulação do organismo.
A abordagem considera não apenas o local do sintoma, mas também acontecimentos físicos e emocionais presentes na história daquela pessoa.
Assim como acontece com a TME, a Microfisioterapia ainda apresenta uma quantidade limitada de estudos clínicos quando comparada a técnicas mais estabelecidas da fisioterapia. Alguns de seus mecanismos teóricos ainda não foram suficientemente demonstrados cientificamente.
Isso não significa necessariamente descartar essas abordagens, mas compreender qual é o lugar delas dentro do cuidado.
Integrar não significa substituir
Talvez esse seja o ponto mais importante.
Terapias complementares não precisam competir com a medicina, a psicologia ou a fisioterapia convencional. Elas podem fazer parte de um cuidado integrado.
Uma pessoa com ansiedade importante pode precisar de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Uma pessoa com dor persistente pode precisar de avaliação médica, fisioterapia, exercícios, mudanças na rotina e melhora do sono.
E algumas pessoas podem se beneficiar também de abordagens complementares que ampliem a percepção corporal e ajudem a reduzir padrões persistentes de tensão.
A ciência contemporânea da dor tem nos mostrado cada vez mais que corpo e mente não funcionam de maneira independente. Aquilo que sentimos pode modificar nossa fisiologia, assim como aquilo que acontece no corpo influencia nossas emoções e nossa percepção.
Por isso, diante de uma dor persistente, talvez não devamos perguntar apenas: “onde está a lesão?”. Podemos também perguntar:“o que está acontecendo com esse organismo como um todo?”
Esse é um dos princípios de uma fisioterapia mais integrativa: não atribuir todas as dores às emoções, mas compreender que, algumas vezes, para cuidar do lugar onde doi, precisamos olhar para o indivíduo por inteiro.
- Eliza Sonoda (é fisioterapeuta integrativa, com Pós-Doutoramento em Neurociências pela UNIFESP, sócia da rede Fisio Bianchini e coordenadora da Área da Saúde da Associação Fernanda Bianchini).
IG: @elizasonoda




