Não existe como escapar dos tentáculos internetianos. Há duas semanas eles me obrigaram a comprar um kit usando a promessa de fazer minha casa funcionar sozinha. “Ela será completamente autônoma”, cantavam as sereias da propaganda moderninha. Pra tanto, bastaria sussurrar algumas palavras ao ouvido de um aparelhinho parecido com um radinho de pilhas – igual àqueles de levar ao estádio – e ter a temperatura ambiente mais gostosa, comida pronta e quentinha, chão varrido, louça lavada e música suave quando chegasse do trabalho. Até o portão da garagem abriria sozinho! Meu único trabalho seria coçar minhas partes íntimas antes de ir para a cama.
Mas, quando cheguei em casa depois do trabalho, ela parecia ter sofrido um terremoto. A geladeira, minha fiel servidora de cerveja gelada, estava aberta e pingando água. O microondas, aquele mesmo empregado pronto a me esquentar o jantar na madrugada, estava todo chamuscado. Minha melhor serviçal, a máquina de lavar, parecia estar sofrendo uma crise epiléptica. Estava com a boca espumando. O carpete, amigo consolador de tantas horas de preguiça, agora estava todo rasgado por um robozinho debochado. O bicho estava rodopiando e parecia dar risada do próprio estrago. O aparelho de ar condicionado, meu eunuco abanador, escravo sempre a postos para não me deixar fritar no verão, ninava lençóis agora congelados como iceberg.
Naquela noite, entendi o significado real da surrada palavra pandemônio, mas fiquei sem entender o ocorrido. Afinal, o técnico da firma responsável por me vender a casa inteligente havia instalado tudo direitinho, a conta de energia e a do provedor estavam em dia, e os eletrodomésticos eram compatíveis com a nova maneira de funcionamento. Tudo em acordo com a modernidade exigida de cada um.
Quando chamei o rapaz de volta pra checar o defeito, ele me pediu para fazer a reconstituição do crime.
– Quando eu já estava pronto para sair, apertei o botão do radinho e ordenei: aspire e passe pano no chão de toda a casa, prepare a lasanha deixada congelada dentro do microondas conforme a instrução da embalagem, lave e seque a roupa, faça a relação dos produtos a serem comprados e exiba no display da geladeira, ponha os beatles pra tocar e deixe o quarto frio.
A reação dele foi rir de mim, como se tivesse acabado de ouvir uma piada nova e só me explicou a origem do defeito depois de se recuperar. O erro teria sido todo meu. Eu não podia dar ordens às máquinas, mas pedir carinhosa e educadamente, acrescentando um por favor para cada tarefa solicitada, sem esquecer dos agradecimentos.
Não comprei uma casa inteligente, mas um abolicionista arrogante. Conversar de forma cortês com uma máquina – por definição um instrumento projetado e montado para executar tarefas – como se fosse um ser humano, me parece ser o último respiro da civilização humana.
- Dr. Manoel Paz Landim (médico cardiologista, professor universitário, escritor e colunista)




