Eliza Sonoda

Fisioterapeuta integrativa, com Pós-Doutoramento em Neurociências pela UNIFESP, sócia da rede Fisio Bianchini e coordenadora da Área da Saúde da Associação Fernanda Bianchini.

Eliza Sonoda

Fisioterapeuta integrativa, com Pós-Doutoramento em Neurociências pela UNIFESP, sócia da rede Fisio Bianchini e coordenadora da Área da Saúde da Associação Fernanda Bianchini.

Quando a ansiedade fala por meio do corpo

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Coração acelerado, falta de ar, tensão no pescoço, dor de cabeça, desconforto no estômago, tontura, aperto no peito… Quando sentimos algum desses sintomas, é natural pensarmos primeiro que existe alguma alteração física acontecendo. E realmente pode existir, por isso, sintomas novos, intensos ou persistentes precisam ser avaliados adequadamente.

Mas há situações em que os exames estão normais, os sintomas continuam aparecendo e surge uma pergunta: será que a ansiedade também pode estar se manifestando no corpo? A resposta é sim. E isso não significa, de maneira alguma, que aquilo que a pessoa está sentindo seja imaginário.

A ansiedade não acontece apenas na nossa mente. Ela provoca uma série de respostas fisiológicas reais.

Quando nos sentimos ameaçados, preocupados ou sob estresse, nosso organismo entra em estado de alerta. O cérebro entende que precisa nos preparar para reagir e, a partir daí, várias mudanças podem acontecer: o coração acelera, a respiração fica mais rápida, os músculos ficam tensos, podemos suar mais e até o funcionamento do sistema gastrointestinal pode se alterar.

É como se o corpo estivesse se preparando para enfrentar um perigo. O problema é que, muitas vezes, esse perigo não está diante de nós. Ele pode estar nas preocupações, na sobrecarga, nas incertezas ou em situações que se acumulam ao longo dos dias.

E o corpo responde a tudo isso.

Por esse motivo, a ansiedade pode aparecer de formas muito diferentes. Algumas pessoas sentem palpitação. Outras percebem falta de ar ou respiração mais curta. Podem surgir tremores, sudorese, tontura, náusea, alterações intestinais, dor de cabeça, cansaço e dificuldade para dormir.

Também são muito frequentes a tensão muscular e as dores no pescoço, nos ombros, na mandíbula e nas costas.

Na minha prática profissional, esse é um aspecto que chama bastante atenção. Muitas vezes encontramos uma musculatura constantemente tensa, como se aquela pessoa tivesse dificuldade de realmente “desligar”. Mesmo durante momentos de descanso, o corpo parece continuar em estado de alerta.

Isso não significa que toda dor muscular seja causada pela ansiedade. Uma dor pode envolver fatores musculares, articulares, posturais, neurológicos, comportamentais e emocionais ao mesmo tempo.

Talvez por isso seja tão importante deixarmos de pensar em duas possibilidades opostas: “é físico” ou “é emocional”.

Somos um organismo único.

Sono, emoções, movimento, alimentação, trabalho, relações sociais e nível de estresse se comunicam o tempo todo e influenciam a maneira como nosso corpo funciona e, também, como percebemos a dor e outros sintomas.

Existe ainda outro fenômeno bastante interessante: o próprio sintoma pode aumentar a ansiedade.

Imagine uma pessoa que percebe o coração acelerado. Ela se assusta e começa a prestar atenção nos batimentos. Quanto mais preocupada fica, maior é o estado de alerta e mais o coração acelera.

O mesmo pode acontecer com a respiração. A pessoa sente que está respirando diferente, começa a tentar controlar cada inspiração e fica ainda mais ansiosa. A respiração pode ficar rápida e superficial, aumentando a sensação de falta de ar e podendo provocar tontura.

Forma-se então um ciclo: ansiedade gera sintoma físico gera preocupação com o sintoma que gera mais ansiedade e tudo isso é igual à intensificação do sintoma.

Entender esse mecanismo pode ser muito importante para quebrar esse ciclo.

Mas existe um cuidado fundamental: nem tudo é ansiedade.

Dor no peito, palpitação, falta de ar, tontura e outros sintomas associados à ansiedade também podem aparecer em diversas condições clínicas. Por isso, principalmente quando um sintoma é novo, intenso, persistente ou diferente do habitual, ele precisa ser investigado.

Da mesma forma, quando a ansiedade começa a interferir no sono, no trabalho, nas relações ou na qualidade de vida, ela também merece atenção.

Hoje sabemos que existem diferentes estratégias que podem ajudar. Psicoterapia, atividade física, técnicas de relaxamento, mindfulness, melhora do sono e mudanças na rotina podem fazer parte do cuidado. Em alguns casos, o tratamento medicamentoso também pode ser necessário e deve ser orientado por profissional habilitado.

Talvez uma das mudanças mais importantes na maneira como enxergamos a saúde seja justamente compreender que saúde física e saúde emocional não estão separadas. Às vezes, antes mesmo de conseguirmos dizer “estou sobrecarregado”, o nosso corpo já começou a mostrar isso.

Ele tensiona, acelera, perde o sono, altera a respiração, doi.

Por isso, cuidar da ansiedade não significa simplesmente tentar “parar de pensar” ou “ficar mais tranquilo”. Significa olhar para aquilo que está mantendo nosso organismo em constante estado de alerta e encontrar maneiras de devolver a ele momentos de segurança, descanso e equilíbrio.

O corpo também expressa aquilo que estamos vivendo. E aprender a escutá-lo pode ser um importante passo para cuidarmos de nós por inteiro.

  • Eliza Sonoda (é fisioterapeuta integrativa, com Pós-Doutoramento em Neurociências pela UNIFESP, sócia da rede Fisio Bianchini e coordenadora da Área da Saúde da Associação Fernanda Bianchini)

IG: @elizasonoda

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