Se até um rei como o Leão (portanto Rei da floresta) Covarde d’O Mágico de Oz pode confessar ser um medroso, eu também tenho o direito de expor meus cagaços. Afinal, o medo é o único traço verdadeiramente comum a todos os seres vivos. Alguns medos são públicos, mas outros ficam na moita pela vida inteira.
O terror conhecido como elevador panorâmico, a versão moderna da roda-viva chamada de roda gigante, a nova Tentação de Cristo apelidada de mirante com piso de vidro no último andar dos prédios, ou a simples vista de uma janela localizada acima do segundo andar, são meus medos públicos, portanto confessáveis. Os psicólogos podem até chamar de acrofobia, mas – pra mim – tem o nome de pavor, pânico, terrorismo.
Essa tortura me impede até de assistir a alguns filmes, como o da aventura do funâmbulo e equilibrista francês Philippe Petit (The Walk, ou “A Travessia”). Também tem outras aventuras menos conhecidas como aquele onde um casal acorda numa cabaninha (numa cabaninha !!!) pendurada na crista de uma montanha (Appel), o documentário ganhador do Oscar Free Solo, sobre o aventureiro El Capitan, The Alpinist, sobre o maluco Marc-André Leclerc, e muitos outros a mim relatados por quem teve estômago pra ver.
Alguma força sobrenatural me segura e eu empaco como jumento. Essa fraqueza já me faz passar vergonhas extremas, como não acompanhar meu filho ao mirante do edifício Antônio Arantes em São Paulo. Me borrei antes de começar a escada, já na saída do primeiro elevador. Ninguém conseguiu me desencostar da parede, enquanto o moleque seguia todo pimpão até o parapeito.
Alpinistas, parapentistas e trapezistas vieram ao mundo com uma exclusiva missão: a de me humilhar. Aí nessa turma também estão os paraquedistas, pilotos de helicópteros e de asa delta, além dos malucos das montanhas russas. Posso ter perdido excelentes aventuras, mas estar em terra firme compensou cada uma delas.
Meus amigos só não conheciam o meu medo íntimo e agora chegou a hora de desatar esse nó, o mais apertado de todos. Há trinta e um anos desenvolvi o medo de não ser capaz de educar o meu filho. Não o de lhe deixar passar fome, ou de não conseguir mantê-lo na escola. Falo do medo de não conseguir orientá-lo corretamente a ponto de não o ajudar a ser um sujeito do bem.
Há muitos anos planejávamos uma viagem a dois. Pegaríamos um carro e andaríamos meio sem destino, parando onde tivéssemos vontade e seguiríamos contemplando paisagens e lugares atraentes tanto para ele quanto pra mim. Enfim conseguimos e quem dirigiu e escolheu todo o roteiro foi exatamente ele, como uma surpresa pra mim.
Uma noite paramos para jantar e, como nunca havia acontecido, comemos nossos bifões dividindo uma garrafa de vinho. Não um pai e um filho, mas como dois amigos adultos. Exatamente o amigo cujo medo de falhar na educação me impediu de ser enquanto ele era uma criança.
Continuo orgulhosamente acrofóbico, mas o meu medo íntimo sumiu sem deixar saudade.
- Dr. Manoel Paz Landim (médico cardiologista, professor universitário, escritor e colunista)



