Higor Jorge
Delegado de Polícia, professor, palestrante e autor de livros

Higor Jorge

Delegado de Polícia, professor, palestrante e autor de livros

Higor Jorge alerta: “O erro mais frequente é acreditar que precisa resolver tudo na hora. A pressa favorece o criminoso”  

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Com o início do pagamento antecipado do 13º salário de aposentados e pensionistas do INSS, cresce também a preocupação com os golpes praticados por criminosos que se aproveitam desse período para enganar a população, especialmente idosos. Em 2026, a primeira parcela foi programada para o período de 24 de abril a 8 de maio, o que tradicionalmente aumenta a circulação de mensagens falsas, ligações suspeitas e abordagens fraudulentas envolvendo suposta liberação de valores, revisão de benefício, atualização cadastral e empréstimos consignados.

Nessas situações, os golpistas costumam agir com pressa e criar um ambiente de urgência para confundir a vítima. Eles se apresentam como funcionários de banco, representantes de órgãos públicos ou intermediários de serviços, e tentam obter senhas, códigos enviados por SMS, fotografias de documentos, dados bancários ou até induzir transferências via Pix. A estratégia é quase sempre a mesma: gerar medo, expectativa ou sensação de perda iminente para impedir que a vítima reflita, confirme a informação ou peça ajuda.

Diante desse cenário, a orientação preventiva ganha ainda mais importância. A recomendação é desconfiar de qualquer contato inesperado relacionado a benefício, dinheiro a receber, prova de vida, desbloqueio de pagamento, atualização de cadastro ou oferta de crédito fácil. Em caso de dúvida, a população deve buscar apenas canais oficiais e jamais compartilhar dados pessoais, senhas ou códigos de autenticação.

Para orientar a população sobre os principais riscos nesse período e reforçar medidas simples de prevenção, foi entrevistado Dr. Higor Jorge, delegado de polícia no Estado de São Paulo, professor da Academia de Polícia, autor e coordenador de obras voltadas à investigação criminal tecnológica, polícia judiciária e segurança pública e também colunista do Canal 12.  

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Canal 12 – Higor Jorge, com a antecipação do 13º de aposentados e pensionistas, esse período exige um alerta especial da população?

Dr. Higor Jorge – Sem dúvida. Esse é um momento que exige atenção redobrada, porque os criminosos sabem que milhões de pessoas passam a acompanhar a entrada de valores nas contas e usam exatamente esse contexto para tentar aplicar golpes. Eles exploram a expectativa do recebimento, a pressa, a insegurança e, muitas vezes, a boa-fé das vítimas. Em regra, os aposentados e pensionistas acabam sendo alvos preferenciais, especialmente quando estão sozinhos no momento do contato ou quando não têm uma rede próxima de apoio para confirmar a informação.

Além disso, é importante destacar que o golpe nem sempre começa de forma agressiva. Muitas vezes o criminoso fala de maneira educada, passa aparente credibilidade, usa termos que lembram atendimento bancário ou previdenciário e tenta conquistar a confiança da vítima aos poucos. Por isso, o alerta não vale apenas para quem vai receber o benefício, mas também para filhos, netos, parentes, vizinhos e cuidadores, que têm papel essencial na prevenção.

Canal 12 – Quais são os golpes mais comuns nessa época?

Dr. Higor Jorge – Os golpes mais comuns costumam ocorrer por telefone, WhatsApp, SMS e redes sociais. Em geral, o criminoso afirma que existe um valor extra para ser liberado, uma revisão do benefício, uma pendência cadastral, um bloqueio que precisa ser evitado ou uma oportunidade de empréstimo consignado com liberação rápida. A partir dessa narrativa, ele tenta convencer a pessoa a fornecer informações pessoais ou a realizar algum procedimento supostamente necessário para receber o dinheiro.

Também é comum o envio de links falsos, muitas vezes com aparência de página oficial, para que a vítima “consulte” o benefício, “regularize” o cadastro ou “confirme” seus dados. Quando a pessoa clica, pode acabar entregando informações sensíveis ou até instalando mecanismos de fraude no aparelho. Em outras situações, o golpista pede um código enviado por mensagem, dizendo que se trata de validação do atendimento, quando na verdade está tentando acessar conta bancária, aplicativo ou serviço em nome da vítima.

Canal 12 – Quais são os principais sinais de alerta que a população deve observar?

Dr. Higor Jorge – O primeiro grande sinal de alerta é a urgência. Sempre que alguém pressiona a pessoa a resolver tudo imediatamente, sob pena de perder benefício, bloquearem pagamento ou deixarem de liberar um valor, é necessário desconfiar. Golpista costuma trabalhar com pressa justamente para impedir que a vítima raciocine com calma e confirme a veracidade da informação.

Outro sinal muito importante é qualquer pedido de senha, código recebido por SMS, fotografia de documento, selfie, número de cartão, dados bancários ou pagamento por Pix. Esse tipo de solicitação deve ser encarado com extrema cautela. Também é preciso desconfiar de links recebidos por mensagem, mesmo quando o texto parece formal ou convincente. Em matéria de prevenção, a desconfiança é uma ferramenta de proteção.

Canal 12 – Qual deve ser a orientação imediata para quem receber esse tipo de contato?

Dr. Higor Jorge – A orientação é objetiva: não fornecer dados, não clicar em links e não fazer transferências. Se a pessoa recebeu ligação, mensagem ou qualquer abordagem suspeita, o ideal é interromper o contato, não continuar a conversa e buscar confirmação por canais oficiais. Quanto mais a vítima permanece na interação com o golpista, maior a chance de ser pressionada emocionalmente e acabar cedendo.

Também é importante evitar qualquer decisão tomada no impulso. O correto é parar, respirar, conversar com alguém de confiança e verificar a informação diretamente com o banco, com o aplicativo oficial, com o órgão responsável ou presencialmente, se necessário. O erro mais comum em golpes dessa natureza é agir na pressa. Por isso, a prevenção começa com uma atitude simples: desacelerar e confirmar.

Canal 12 – Os idosos costumam ser os principais alvos. Como a família pode ajudar de forma prática?

Dr. Higor Jorge – A família pode ajudar muito, e eu diria que essa ajuda é decisiva. O primeiro passo é conversar previamente com os idosos e explicar, de forma clara e tranquila, como esses golpes funcionam. É importante orientar que nenhuma decisão relacionada a benefício, banco, senha, documento ou transferência deve ser tomada sozinha diante de uma ligação ou mensagem inesperada.

Outra medida prática é estabelecer uma rotina de conferência. Por exemplo: se chegar qualquer contato envolvendo dinheiro, pagamento, cadastro ou benefício, a orientação é sempre falar antes com um filho, neto, sobrinho ou pessoa de confiança. Essa combinação prévia reduz bastante o risco de fraude. Muitas vítimas não caem por falta de inteligência, mas porque são surpreendidas, assustadas e levadas a acreditar que precisam agir naquele instante. Quando existe uma rede de apoio, a chance de sucesso do criminoso diminui consideravelmente.

Canal 12 – E quando o golpista já sabe o nome da vítima ou algum dado básico? Isso aumenta o risco de convencimento?

Dr. Higor Jorge – Sem dúvida. Quando o criminoso menciona nome, cidade, parte do CPF, instituição bancária ou qualquer dado aparentemente verdadeiro, a vítima tende a acreditar que aquele contato é legítimo. Isso é muito comum. Hoje existem várias formas ilícitas de obtenção e circulação de dados, e o fato de o golpista conhecer alguma informação não significa que ele represente um órgão oficial ou que o contato seja verdadeiro.

Por isso, a população precisa entender que o critério de confiança não pode ser o simples fato de a pessoa do outro lado conhecer algum dado pessoal. O que define a segurança é a confirmação independente da informação, feita por meio de canal confiável e oficial. Esse cuidado é essencial para quebrar a lógica do golpe.

Canal 12 – Quais erros a vítima mais comete nessas situações?

Higor Jorge – O erro mais frequente é acreditar que precisa resolver tudo na hora. A pressa favorece o criminoso. Outro erro comum é clicar em link recebido por mensagem sem conferir a origem ou passar código de segurança achando que está apenas confirmando atendimento. Há ainda situações em que a própria vítima faz transferência por acreditar que está evitando um prejuízo maior, desbloqueando conta ou garantindo a liberação de um valor.

Também ocorre, com certa frequência, a vergonha de pedir ajuda. Algumas pessoas, especialmente idosos, têm receio de incomodar familiares ou de demonstrar insegurança. Mas é importante reforçar: pedir ajuda é uma atitude correta e prudente. Em temas envolvendo dinheiro, benefício e dados pessoais, o ideal é sempre confirmar antes.

Canal 12 – Se a pessoa perceber que caiu em um golpe, o que deve fazer imediatamente?

Dr. Higor Jorge – Ela deve agir o mais rápido possível. O primeiro passo é entrar em contato imediatamente com o banco ou com a instituição financeira para relatar a fraude e tentar bloquear movimentações, acessos ou transações. Essa rapidez pode ser decisiva para reduzir o prejuízo.

Em seguida, é fundamental procurar a Polícia Civil para registrar a ocorrência e apresentar todos os elementos disponíveis: prints de mensagens, comprovantes, números de telefone, conversas, nomes utilizados pelos criminosos, dados bancários envolvidos e qualquer outra informação útil. Quanto mais cedo a vítima agir e quanto mais organizado estiver esse material, maiores são as chances de auxiliar na apuração e de prevenir novas vitimizações.

Canal 12 – Existe alguma orientação simples que o senhor considera essencial para a população memorizar?

Dr. Higor Jorge – Sim. A orientação mais importante é esta: ninguém deve passar senha, código de segurança, documentos, dados bancários ou fazer pagamento porque recebeu ligação ou mensagem inesperada. Essa regra, por si só, já evita muitos golpes.

Outra orientação essencial é desconfiar sempre de promessas boas demais, de soluções urgentes e de contatos que pressionam a pessoa a decidir imediatamente. Em segurança, cautela nunca é excesso. É melhor interromper uma conversa verdadeira para confirmar a informação do que agir no impulso e cair em uma fraude.

Canal 12 – Para encerrar, qual recado final o senhor deixa para aposentados, pensionistas e familiares?

Dr. Higor Jorge – O recado final é de prevenção e responsabilidade compartilhada. Aposentados e pensionistas precisam redobrar a atenção nesse período, mas a família também deve participar dessa proteção. Informação, diálogo e calma ainda são as melhores formas de evitar prejuízo.

Sempre que surgir uma ligação estranha, uma mensagem suspeita, um link desconhecido ou uma promessa de dinheiro fácil, o caminho é o mesmo: parar, desconfiar, confirmar por canal oficial e pedir ajuda, se necessário. Golpista se aproveita da pressa, do medo e da confiança da vítima. Por isso, a melhor defesa continua sendo a orientação correta e a cautela no momento da decisão.

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