As civilizações criam e destroem seus deuses e com o pessoal da minha geração não foi diferente. Nós incensamos os carros e no mesmo altar acendemos velas para os santos Fittipaldi, Steve McQueen, James Dean e Roberto Carlos e outros velozes e furiosos. As máquinas barulhentas, envenenadas e reluzentes eram o sonho de todo rapaz. Completar os dezoito anos e tirar a primeira carta era, então, nosso objetivo principal de vida.
A minha primeira carteira de motorista só venceria próximo à chegado dos anos dois mil e a expectativa era de estar dirigindo discos voadores quando ela expirasse. Enquanto isso não acontecia, eu e meus contemporâneos continuamos poluindo a atmosfera e destruindo a camada de ozônio. A era do politicamente correto pôs toda a culpa em nós, cuidadosamente livrando a cara dos desmatamentos, das chaminés e das usinas movidas à carvão.
Depois de nos considerarem os assassinos do planeta, descobrimos agora ser – também – pecadores. Não por adorarmos nossos bezerros de ouro, mas por preconceito. Ninguém mais pode dar um passinho sequer fora dos limites, nem saciar a sede de aventuras ouvindo Infinita Highway, Born to Be Wild nem sair de Calhambeque quando mandar o Cadillac pro mecânico.
Não foi a igreja quem nos excomungou, mas o governo, instituindo um prosaico imposto do pecado. Além de termos emporcalhado o mundo, agora somos também os novos anticristo. Comprar um carro tradicional hoje em dia equivale a fumar um Marlboro, beber cachaça ou comprar bebidas adocicadas. Realizar o próprio sonho é ilegal, imoral e engorda, além de pagar mais taxas.
Quem não quiser andar na rua sem ser alvo de pedradas, nem ser reconhecido como bandido, precisa ter um chinesinho elétrico na garagem e – no máximo – contentar-se com um poster de Mustang na parede.
- Dr. Manoel Paz Landim (médico cardiologista, professor universitário, escritor e colunista)



