
Um grupo de artistas, intelectuais, acadêmicos e representantes de organizações publicou no jornal francês Le Monde um manifesto no qual acusa os Estados Unidos de tentar influenciar a eleição presidencial brasileira e afirma que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) participa desse movimento. O texto, publicado nesta quarta-feira (30), pede que veículos de comunicação, políticos, instituições europeias e organizações da sociedade civil “acompanhem” a votação de outubro e se posicionem contra o que os signatários classificam como “interferência estrangeira” no Brasil.
Entre os signatários estão o cantor brasileiro Chico Buarque, o ex-jogador Raí e os economistas Thomas Piketty, Joseph Stiglitz e Philippe Aghion, além de pesquisadores e representantes de organizações.
O manifesto afirma que a eleição brasileira, cujo primeiro turno ocorre neste domingo (4) e eventual segundo turno no dia 25, terá consequências para a democracia em toda a América Latina. Os autores relacionam a disputa ao avanço da direita em outros países da região e concentram parte das críticas na atuação do governo do presidente Donald Trump em relação ao Brasil.
“Uma potência estrangeira busca abertamente influenciar o resultado de uma eleição soberana, com a cumplicidade ativa de um dos candidatos”, afirmam os signatários ao acusarem Washington de tentar favorecer Flávio.
Para sustentar a acusação, o grupo cita as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e medidas tomadas pelo governo Trump contra autoridades do país. O manifesto também afirma que Flávio viajou a Washington em maio para se encontrar com Trump, o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente J.D. Vance e que pediu uma supervisão internacional da eleição brasileira.
Os Estados Unidos aplicaram em julho uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros, após uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. Posteriormente aplicou outra tarifa de 12,5%. O governo americano justificou oficialmente a medida com questões que incluíam comércio digital, tarifas consideradas discriminatórias, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. O manifesto, porém, relaciona as medidas americanas também ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e cita restrições de vistos adotadas por Washington contra autoridades brasileiras.
Manifesto faz críticas a Jair e Flávio Bolsonaro
O documento faz uma série de críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e apresenta a candidatura de Flávio como uma “continuidade de seu projeto político”. Os signatários mencionam na carta a condenação do ex-presidente e fazem críticas à condução de seu governo durante a pandemia de Covid-19 e às políticas adotadas nas áreas ambiental e social.
As críticas se estendem ao programa econômico atribuído a Flávio. O grupo cita propostas de austeridade fiscal, redução do tamanho do Estado, privatizações e diminuição de impostos e afirma que essas políticas poderiam “aumentar a desigualdade e a pobreza”. Outro ponto citado pelo grupo envolve declarações de Flávio sobre o sistema eleitoral. Segundo os signatários, o candidato do PL teria “colocado em dúvida” a confiabilidade do processo eleitoral brasileiro antes da votação e, posteriormente, negado ter questionado sua integridade. Os autores classificam essa postura como uma “preparação metódica” para uma eventual contestação eleitoral.
“Não se trata de episódios isolados: é a preparação metódica de uma contestação eleitoral, independentemente de vitória ou derrota. Ao lançar antecipadamente dúvidas sobre a legitimidade da eleição, essa estratégia prepara o terreno para a contestação de um resultado que seja desfavorável. Assim, antes mesmo de os brasileiros votarem, ela enfraquece a confiança nas instituições responsáveis por garantir a escolha dos eleitores”, diz o texto.
Os signatários da carta citam mudanças políticas ocorridas na Argentina, Chile, Peru, Colômbia e Estados Unidos e afirmam que uma vitória de Flávio fortaleceria movimentos de direita na região. Na avaliação do grupo, essas mudanças estariam formando uma “hegemonia reacionária” no continente com apoio de Washington. Os autores afirmam que uma mudança de governo no Brasil reforçaria essa tendência “sob a liderança de Trump”.
Ao final, os signatários pedem que “veículos de comunicação, autoridades políticas, instituições europeias e organizações da sociedade civil francesa acompanhem a votação” e “rejeitem qualquer interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro”.
“O 4 de outubro não será apenas o Brasil que votará. Uma parte importante do futuro da democracia estará em jogo”, afirmam os autores.