Delegado Higor Jorge, o que exatamente são as chamadas fraudes no PIX e os “sequestros instantâneos digitais”?
Esses crimes surgiram com o avanço da tecnologia bancária e a popularização do PIX. O criminoso busca obter acesso ao aparelho celular da vítima — seja por furto, roubo, clonagem de chip (o chamado SIM Swap) ou até por engenharia social — e, em questão de minutos, realiza transferências bancárias via PIX.
É o que chamamos de “sequestro instantâneo digital”, porque o criminoso literalmente sequestra a conta bancária da vítima de forma remota e imediata. É um crime rápido, silencioso e devastador.
De que forma esses criminosos conseguem acesso às contas das vítimas?
Há várias formas. A mais comum é o furto ou roubo de celulares desbloqueados, o que permite acesso direto aos aplicativos bancários.
Outra técnica é o SIM Swap, quando o criminoso engana a operadora e transfere o número da vítima para outro chip. Assim, ele passa a receber todos os códigos de autenticação e mensagens.
Também há os golpes por engenharia social, quando o autor se passa por funcionário do banco, técnico ou parente para induzir a vítima a clicar em links falsos ou fornecer senhas.
Esses crimes são resultado de falhas no sistema bancário ou de comportamento do usuário?
É importante esclarecer: o sistema bancário é seguro, mas o ponto vulnerável é o comportamento do usuário.
Os criminosos exploram descuidos, como deixar o celular desbloqueado, repetir senhas, clicar em links suspeitos ou armazenar dados sensíveis no aparelho.
A tecnologia em si não é o vilão — o risco está no uso descuidado. Por isso, educação digital é hoje uma forma de autoproteção.
Quais são as medidas práticas de proteção que o cidadão pode adotar?
As medidas são simples, mas precisam virar hábito:
- Use senhas diferentes e fortes para cada aplicativo;
- Ative a verificação em duas etapas no e-mail, nas redes sociais e nos aplicativos de banco;
- Evite deixar o celular sem bloqueio automático;
- Não salve senhas no bloco de notas, fotos ou mensagens;
- E, principalmente, tenha um aplicativo de bloqueio remoto para apagar dados em caso de perda ou furto.
Em caso de roubo, o primeiro passo é bloquear o chip e os aplicativos bancários, e depois registrar imediatamente o boletim de ocorrência.
Delegado, como funciona o golpe do PIX aplicado via WhatsApp ou redes sociais?
Essa é uma modalidade que explodiu nos últimos anos.
O criminoso invade a conta de WhatsApp ou cria um perfil falso da vítima e começa a enviar mensagens pedindo dinheiro a parentes e amigos.
As mensagens são convincentes: “troquei de número, estou com um problema, pode me ajudar com um PIX urgente?”.
É um golpe emocional, que se apoia na confiança.
A orientação é: nunca faça transferências sem confirmar por ligação ou outro canal direto com a pessoa. Um simples telefonema pode evitar grandes prejuízos.
Quais são as consequências jurídicas para quem pratica esses golpes?
Esses crimes são punidos com rigor.
O autor pode responder por furto com uso de tecnologia, estelionato com uso de tecnologia, ambos com as plenas ampliadas pelo uso da tecnologia, associação criminosa e até lavagem de dinheiro, se houver movimentação de valores para ocultar a origem.
Quem empresta conta bancária para receber o dinheiro — os chamados “laranjas” — também comete crime e pode ser processado.
A Polícia Civil vem atuando com perícia digital, rastreamento de transferências e parcerias com instituições financeiras para identificar e responsabilizar todos os envolvidos.
E o que a população pode fazer para ajudar nesse combate?
A colaboração da população é fundamental.
Sempre que houver golpe ou tentativa de fraude, registre o boletim de ocorrência — mesmo que o valor pareça pequeno. Isso ajuda a Polícia Civil a mapear as redes criminosas e prevenir novos casos.
Denuncie também atividades suspeitas, especialmente contas que recebem muitos PIX de desconhecidos.
E o mais importante: compartilhe informação segura. Quando o cidadão se educa e educa os outros, ele quebra a cadeia do crime digital.
Fale sobre o que é o novo MED e por que ele mudou
O MED — Mecanismo Especial de Devolução — é uma ferramenta instituída pelo Banco Central no ambiente do Pix para facilitar a devolução de valores enviados indevidamente em casos de fraude ou erro operacional.
Originalmente, quando a vítima de um golpe registrava o fato junto ao banco, a instituição financeira podia, em prazo regulado, solicitar bloqueio e devolução dos recursos à conta lesada. O desafio, porém, era que os fraudadores costumam esvaziar rapidamente a conta recebedora, transferindo os valores para outras contas intermediárias, o que dificultava o ressarcimento.
Com as mudanças mais recentes (a nova versão do MED, digamos “MED 2.0”, ou “MED aprimorado”), algumas evoluções importantes passam a valer:
- Será possível fazer a devolução a partir de outras contas, não apenas daquela originalmente usada pelos fraudadores. O sistema vai identificar os caminhos pelos quais os valores foram movimentados — compartilhando essas informações com os bancos envolvidos — de modo a ampliar a chance de recuperação.
- A contestação da operação poderá ser feita 100% pela via digital (autoatendimento), via app bancário, sem necessidade de atendimento humano. Isso visa acelerar a reação, aumentando a probabilidade de que ainda haja saldo para bloqueio.
- O prazo máximo para devolução, após a confirmação de que houve fraude, passa a ser de até 11 dias a partir da contestação.
- Essas melhorias entram em vigor gradualmente: o recurso de devolução por outras contas será facultativo a partir de 23 de novembro de 2025 e se tornará obrigatório em fevereiro de 2026.
- Já desde 1º de outubro, todos os bancos participantes do Pix devem ativar a opção de contestação digital (autoatendimento) para casos de fraudes via MED.
Essas transformações tornam o MED mais proativo, menos dependente da conta recebedora original (que muitas vezes já está vazia) e mais integrado ao fluxo de rastreamento das movimentações.
Por fim, qual mensagem o senhor deixaria para o cidadão que usa o PIX diariamente?
O PIX é uma ferramenta moderna, rápida e segura — desde que usada com responsabilidade.
O que o crime faz é explorar o descuido e a pressa das pessoas.
Então, o recado é simples: use a tecnologia com prudência.
Desconfie de urgências, não compartilhe códigos, e mantenha seus dispositivos protegidos.
A Polícia Civil está preparada para investigar e punir esses crimes, mas a primeira linha de defesa é sempre o cidadão bem informado.



