Após os sessenta anos, a vida é um eterno pós-baile de carnaval. Quem já varou quatro noites girando no salão ao som da Cabeleira do Zezé, sabe bem como é chegar em casa com uma caixa de abelhas raivosas e uma orquestra de reco-reco, tamborim, apito e Piston dentro das ideias. O incômodo ia até a páscoa, mas dava adeus depois da surra no Judas, nos deixando bons para outras farras.
Porém, a idade fabrica uma cachoeira na cabeça e prende a chiadeira nos miolos, nos obrigando a carregar verdadeira panela de pressão entre as orelhas, tanto de dia quanto de noite. Velho sem chieira, sem zuada, sem grilos nos ouvidos, já morreu. Isso sem falar na tontura, uma tortura chamada pelos médicos de vertigem sazonal, também extremamente comum entre os muros dos asilos.
Tonturas, vertigens e chiados são companhias frequentes até nos famosos. Chico Buarque deu baixa na clínica do Dr. Paulo Niemeyer para tratar a sua, provando que as engrenagens enferrujam até as celebridades. Apesar de um pouco diferente na etiologia, não dá pra dourar a pílula e esconder seus oitenta maravilhosos aninhos.
Nós, os habitantes do lado de lá da vida, sofremos influências diversas e – por isso – formamos as tais populações de risco para várias doenças. Existe uma distribuição sazonal de vertigens e tonturas dependentes das variações climáticas e a baixa umidade do ar contribui para esses sintomas. Na estação chuvosa eles tendem a diminuir, mas basta esperar: voltarão junto com a poeira.
Contudo, esse nefasto privilégio dos vovozinhos está perdendo a sua exclusividade por causa das mudanças do clima. O relatório conjunto do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), A primeira infância no centro de enfrentamento da crise climática, alerta para os impactos sobre crianças e adolescentes provocados pelas ondas de calor, inundações e secas muito mais frequentes desde 2020. Nossos filhos e netos terão menor aprendizagem, doenças infecciosas e mortes também em números maiores, por causa de suas poucas capacidades adaptativas.
As crianças sofrem estresse térmico, levando a exaustão, insolação e falência de órgãos. Perto disso, nossa tonturinha precisa se recolher à sua pouca importância, enquanto vamos domando os grilos, marimbondos e cascatas barulhentas.



