A palavra da moda não vem das vitrines de Milão, nem da São Paulo Fashion Week, mas das linhas tortas das redes sociais e dos programas de fofoca. Quem se considera antenado é obrigado a usá-la no seu cotidiano sob pena de não ser reconhecido como tal, correndo o risco de ser vítima dos haters. Os influencers não tiram da boca (nem das telas) o termo “inflamação”. Não fazem ideia do seu sentido real, mas embarcam na onda. Viajam na mesma lógica do passeio do sol sobre a terra plana e se esbaldam na fama.
Inflamação é um conceito médico e fora dos livros de fisiologia não deveria fazer nenhum sentido. A definição mais trivial diz respeito à gama de respostas de um organismo ante uma agressão. Assim, um ataque perpetrado por uma bactéria desencadeia mudanças nutricionais, imunológicas e das defesas naturais contra uma dinfecção. Neste caso, a inflamação é um método protetor – portanto necessário e esperado – de todos os seres vivos.
Sim. Existem situações onde a resposta de um corpo mal adaptado ao meio, como acontece na obesidade, no diabetes e na doença aterosclerótica, envolve a produção de substâncias nocivas. Findo esse processo desadaptativo com medidas como o emagrecimento, o fim do sedentarismo e a corriqueira profilaxia vacinal contra doenças, aquela resposta mediada por interleucinas e citocinas inflamatórias deixará de acontecer.
Reparem: isso tudo sem o uso de nenhuma substância específica. Nem chás, nem temperos, nem óleos. Simplesmente pela chamada mudança do estilo de vida. Cúrcuma, compostos de magnésio, planta ora pro nobis, ômega três, entre tantas outras bobagens, são – no máximo – objetos de alguns estudos. Até gente séria pesquisa essa beberagem, mas sem nenhum resultado prático.
A medicina popular existe e devemos dar-lhe os créditos devidos. Nada além disso. Um banho ajuda a baixar a febre, o repouso melhora a resposta imunológica, a hidratação adequada e a reposição de eletrólitos salva inúmeras vítimas de diarreias. Os aplausos devem ser-lhes dirigidos e ponto final. Daí a se inferir propriedades curativas de chás e temperos, vai uma distância enorme.
Só a título de curiosidade, admitamos a eficácia do chá de picão contra a varicela. Para se assemelhar a um remédio, precisa-se considerar o mesmo rigor na sua produção. Assim, o tal picão deveria ser cultivado no mesmo tipo de solo, ser irrigado com a mesma quantidade e qualidade de água, ser exposto à mesma insolação, ser ou não poupado do sereno, ser colhido à mesma época, ter a quantidade certa em unidade de medida, ser cozido à mesma temperatura pelo mesmo tempo, e ingerido na mesma quantidade. Cumpridas essas exigências, talvez possam ser mensuradas as suas propriedades terapêuticas.
Desculpem, mas é assim. Qualquer coisa fora disso é especulação ou exploração da boa-fé das pessoas.



