No artigo publicado na semana passada nesta coluna, intitulado “25 anos de lousa e 10 de gestão: Por que o desempenho escolar está desmoronando?”, buscamos trazer à tona uma discussão simples, mas que exige reflexão em todos os níveis sociais — começando pelo ambiente doméstico e atingindo os altos escalões políticos. O objetivo é provocar ações imediatas sobre os impactos que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos tem gerado na educação, principalmente entre crianças e adolescentes do ensino básico.
O insight baseou-se no estudo International declines in academic performance and increases in loneliness are linked to electronic devices, publicado no Journal of Adolescence. Nele, a pesquisadora Jean M. Twenge demonstra como o uso massivo de dispositivos eletrônicos tem correlação direta com a queda nos índices globais de desempenho escolar e no convívio social dos jovens.
O estudo é extremamente consistente: foi realizado em 36 países (incluindo o Brasil), com uma amostra expressiva de 1,7 milhão de jovens. A pesquisa analisou os resultados do PISA (Programme for International Student Assessment) e o fator “solidão entre os jovens” entre os anos de 2000 e 2012.
Os resultados, como mencionado, apontam para um declínio generalizado nos scores acadêmicos, especialmente em países onde o uso do celular é mais intenso. Na mesma linha, o fator “solidão” apresentou-se mais significativo nesses locais, demonstrando como os dispositivos eletrônicos, ironicamente, amplificam a capacidade de isolamento social.
Certamente, jogar a tecnologia na “vala comum” dos males da sociedade contemporânea criaria um viés de injustiça, e talvez até de hipocrisia, afinal, todos nós desenvolvemos uma notória dependência tecnológica. A internet, aliada à popularização da telefonia celular, criou um ambiente favorável ao crescimento educacional e profissional, permitindo-nos um acesso ao mundo globalizado nunca antes sonhado. O problema, contudo, reside na forma como esses recursos são utilizados.
As redes sociais, em particular, representam um “desvio de funcionalidade” expressivo para a produtividade estudantil. Elas são a principal causa do “furto de foco”, já que a maioria propaga vídeos muito superficiais com menos de um minuto de duração. Além disso, disseminam a “cultura do inútil”, abrindo passagem para figuras que se autointitulam “influenciadores digitais” — muitas vezes, indivíduos disfarçados de experts cujo papel real é “imbecilizar” a audiência em uma jornada onde quanto menos conteúdo houver, mais entretenimento se gera.
É bem verdade que as redes sociais podem gerar um ambiente de aprendizado, ainda que raso, e que o convívio digital pode ser saudável. Entretanto, o estudo aponta para os excessos: excesso de uso, de volatilidade intelectual e de pobreza de informações. Esse é o cenário ideal para o decréscimo intelectual e cognitivo dos mais vulneráveis: as crianças e os jovens.
Os impactos desse fenômeno tecnológico todos nós já sentimos. A questão principal agora é: o que fazer?
Na parte 3 deste ensaio, buscaremos, juntos, por respostas.



