Higor Jorge
Delegado de Polícia, professor, palestrante e autor de livros

Higor Jorge

Delegado de Polícia, professor, palestrante e autor de livros

“Crianças e adolescentes não devem usar Roblox”, de acordo com o delegado

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O Roblox se consolidou como uma das principais plataformas digitais frequentadas por crianças e adolescentes, combinando jogo, rede social, criação de conteúdo e interação em tempo real. Esse modelo — altamente envolvente e massivo — amplia vulnerabilidades típicas da infância e adolescência e cria um ambiente fértil para abordagens predatórias, fraudes e violência psicológica. Entre os riscos mais sensíveis estão o aliciamento sexual online, a migração de conversas para canais externos (onde a vigilância é menor), golpes envolvendo moeda virtual e itens, além de assédio, cyberbullying e exposição a experiências inadequadas.
Diante da relevância do tema e do crescimento dos alertas sobre segurança infantil em plataformas com interação social intensa, ouvimos o colunista do Canal 12, Delegado Higor Vinicius Nogueira Jorge, especializado em investigação criminal tecnológica, para explicar quais são os crimes mais recorrentes, como ocorre a dinâmica de abordagem de criminosos e quais medidas concretas de prevenção devem ser adotadas por famílias e instituições.


Canal 12: Por que o Roblox virou tema de alerta?
Higor Jorge: Porque ele não funciona apenas como jogo. Na prática, é uma plataforma social com interação entre usuários — inclusive desconhecidos —, com chat, voz, criação de ambientes e uma economia própria. Isso amplia a superfície de risco para menores. Quando você junta alto volume de usuários, comunicação rápida e possibilidade de migração para canais privados, você cria um cenário típico para crimes digitais: aproximação, manipulação, fraude e assédio.


Canal 12: O senhor recomenda que crianças e adolescentes deixem de usar a plataforma?
Higor Jorge: Sim. A minha recomendação é direta: crianças e adolescentes não devem usar Roblox. Essa posição é preventiva. Não se trata de demonizar tecnologia; trata-se de reconhecer que o custo do erro, quando falamos de criança, é alto demais. Plataformas com socialização massiva e interação com desconhecidos trazem riscos estruturais que não são eliminados apenas com configurações.


Canal 12: Qual é o risco mais grave associado a esse tipo de ambiente digital?
Higor Jorge: O mais grave é o aliciamento (grooming). O adulto se aproxima, constrói confiança, testa limites e tenta levar a conversa para um canal mais privado. Isso pode evoluir para coerção, chantagem, produção de conteúdo íntimo e, em situações extremas, tentativa de encontro presencial. Esse padrão é conhecido em investigações e em orientações de prevenção sobre exploração sexual online.


Canal 12: O que costuma agravar os casos quando uma abordagem indevida começa dentro do jogo?
Higor Jorge: A migração da conversa para fora da plataforma. Quando alguém insiste em levar a criança para WhatsApp, Discord, Instagram ou qualquer canal privado, isso é um sinal crítico. A partir daí, o controle é menor, a manipulação costuma aumentar e a criança tende a ficar mais isolada, com medo ou vergonha de contar.

Canal 12: Além do aliciamento, quais crimes ou situações aparecem com mais frequência?
Higor Jorge: Eu agruparia em três blocos principais:

  1. Golpes e fraudes envolvendo moeda virtual e itens: promessas de “vantagens”, “Robux grátis”, links, trocas enganosas e roubo de conta.
  2. Violência psicológica: assédio, cyberbullying, humilhação, perseguição e chantagens sociais.
  3. Exposição a conteúdo inadequado e ambientes impróprios, apesar de políticas e moderação, porque sempre há tentativas de burla e o volume de conteúdo é enorme.

Canal 12: Muitos pais dizem: “Existe controle parental, então está tudo resolvido”. O que o senhor responde?
Higor Jorge: Controle parental ajuda, mas não resolve. Medidas técnicas reduzem risco — não eliminam. A principal vulnerabilidade é humana: criança busca aceitação, pertencimento e validação. Criminosos exploram isso com engenharia social. Então, mesmo com ferramentas e filtros, continua existindo o risco de manipulação, coerção, pressão e abordagem gradual.


Canal 12: Qual é o erro mais comum das famílias ao lidar com esse tipo de plataforma?
Higor Jorge: Dois erros: achar que é “só um joguinho” e terceirizar a proteção para a tecnologia. O segundo erro é reagir tarde, quando a conversa já saiu do ambiente e a criança já foi capturada emocionalmente. A prevenção precisa ser anterior, com regra clara e supervisão ativa.


Canal 12: Para famílias que insistem em permitir o uso, quais medidas mínimas são indispensáveis?
Higor Jorge: Se a família insistir, as medidas mínimas são: restringir chat e voz ao máximo; ativar controle parental e acompanhar conexões; impedir contato com desconhecidos; proibir migração para redes externas; reforçar segurança de conta (senha forte e verificação em duas etapas); e, principalmente, manter supervisão real — não apenas “instalar e esquecer”. Ainda assim, repito: a orientação mais segura é não permitir.


Canal 12: Quais sinais de alerta indicam que algo pode estar acontecendo?
Higor Jorge: Mudança de comportamento é importante: ansiedade, irritação, isolamento, medo após usar a plataforma. E sinais operacionais: esconder a tela quando alguém se aproxima, receber mensagens insistentes, alguém pedir segredo, pedir fotos, áudio, ou “prova de amizade”, oferecer vantagens em troca de conversa, ou insistir em contato fora do jogo. Isso exige intervenção imediata.


Canal 12: Se houver suspeita de abordagem sexual, chantagem ou ameaça, qual deve ser a conduta imediata?
Higor Jorge: Interromper o contato e preservar evidências. Prints, usuário, datas, horários, links, tudo. Bloquear, denunciar na plataforma e procurar canais oficiais de denúncia e uma Delegacia de Polícia quando houver indício de crime. O tempo importa muito: preservar evidência cedo aumenta a chance de identificar autoria e evitar que outras vítimas sejam alcançadas.


Canal 12: Qual é o papel da escola nesse cenário?
Higor Jorge: A escola tem papel central. Precisa tratar como educação digital e proteção: privacidade, manipulação, golpes, limites de comunicação com desconhecidos, sinais de aliciamento e canais de acolhimento. O pior cenário é a criança achar que será punida se contar. A escola e a família têm que criar um ambiente em que pedir ajuda seja sempre seguro.

Canal 12: Para finalizar: qual mensagem o senhor considera essencial para os pais?
Higor Jorge: Criança não tem obrigação de administrar risco digital sozinha. Essa é uma responsabilidade do adulto. E, nesse caso específico, a forma mais segura de proteção é simples e objetiva: crianças e adolescentes não devem usar Roblox. Existem alternativas mais controláveis. Em proteção de menores, a pergunta não é “dá para usar?”. A pergunta é “vale o risco?”. Aqui, não vale.

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