O dia 20 de Novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, tornou-se feriado nacional em 2024, um reconhecimento formal da luta, resistência e contribuição inestimável do povo negro para o Brasil. É um marco de celebração e, acima de tudo, de memória. Mas, em pleno 2025, a cor da pele ainda é uma sentença de desigualdade e dor.
Não podemos nos contentar com o descanso ou a homenagem pontual que o feriado oferece. É preciso olhar para além da data e confrontar a realidade avassaladora: o preconceito é um pântano no qual nossa sociedade segue atolada, e ser negro ou negra neste tempo continua sendo um exercício de resistência diária, exaustivo e, muitas vezes, brutal.
O Custo Diário de Ser Negro no Brasil
Em 2025, enquanto o mundo avança em tecnologia e comunicação, somos forçados a testemunhar que a igualdade é uma miragem para a população negra. Os índices de desemprego, a disparidade salarial, a sub-representação em espaços de poder e o acesso precário à educação e saúde são apenas a ponta do iceberg de um racismo estrutural que define lugares, oportunidades e, tragicamente, destinos.
Ser negro em 2025 significa, com frequência, ter sua competência duvidada, ter o corpo vigiado em lojas, ser alvo de abordagens violentas e ter o direito à vida constantemente ameaçado. O racismo não é uma relíquia do passado; ele é um motor silencioso que impulsiona a injustiça a cada minuto, em cada esquina do nosso país.
A Dor que Tem Cor: Mulheres Negras e a Violência Letal
Se o preconceito é cruel para toda a população negra, ele se torna duplamente letal para as mulheres negras, meninas e adolescentes. A violência de gênero, que infelizmente atinge mulheres de todos os recortes sociais e financeiros, adquire um peso devastador quando cruzada com o racismo.
Os dados são inegáveis e gritam por justiça. Segundo o Atlas da Violência 2025, a dor tem cor: em 2023, mais de 68% dos homicídios femininos no Brasil vitimaram mulheres negras. Este índice alarmante mostra que a mulher negra tem 1,7 vezes mais risco de ser assassinada do que a mulher não-negra.
Elas são as que mais sofrem a dupla penalização por gênero e raça.
São elas as que, frequentemente, enfrentam maior vulnerabilidade econômica— dois terços das vítimas têm baixa ou nenhuma renda —, o que dificulta a ruptura do ciclo da violência e a busca por auxílio.
A vulnerabilidade é mais aguda na juventude: a maioria das mulheres negras (53%) que sofreram violência doméstica passou pela primeira experiência de agressão antes dos 25 anos de idade.
O assassinato de uma mulher negra não é apenas feminicídio; é um feminicídio racializado, uma manifestação perversa da intersecção entre machismo e racismo.
A luta por dignidade e igualdade é um dever de todos, todos os dias. Que a consciência negra nos toque e nos mova para que, de fato, o futuro deixe de ter a cor do preconceito.
- Célia Souza (jornalista e correspondente do Canal 12 em Fernandópolis)



