“Vai na mamãe e faz o L”: Influencer bolsonarista expõe menino autista e recusa comprar doces

Uma influenciadora bolsonarista foi alvo de revolta após publicar um vídeo em que pede a Matheus, menino autista que vendia doces em Fortaleza, para fazer o gesto de “L” e, em seguida, recusa a compra. Na legenda, ela escreveu: “Vai na mamãe e manda ela fazer o L”.

Eu tinha acabado de dividir a sobremesa com as amigas e já me levantava para deixar o restaurante quando uma delas mostrou o vídeo. A conversa parou na hora. Porque tem piada que não é piada, minha filha: é humilhação filmada e publicada para render engajamento.

O episódio ocorreu no Mercado dos Peixes, na Beira-Mar de Fortaleza. Matheus se aproximou da mesa onde a influenciadora estava com outras mulheres para oferecer balas e bombons. Durante a conversa, ela perguntou em quem ele e a família votavam.

Depois que o menino mencionou Lula, a influenciadora pediu que ele fizesse o gesto com a mão. Matheus atendeu, mas ela disse que não compraria os doces. As mulheres que a acompanhavam aparecem rindo na gravação.

Eu ouvi uma das amigas dizer que não existe lado político que autorize adulto a usar uma criança que está trabalhando como alvo de provocação. E não existe mesmo. O problema não é discordar de alguém; é colocar um menino em uma situação de constrangimento e transformar aquilo em conteúdo.

Matheus perdeu a mãe e vive com a avó, Inês de Maria do Nascimento. A venda de doces ajuda nas despesas da casa. Esses dados explicam por que o vídeo provocou tanta indignação, mas não deveriam ser necessários para que o básico fosse entendido: respeito não pode depender da história de vida de quem está diante de você.

A repercussão gerou uma mobilização de apoio à família, com doações e visitas de motociclistas e entregadores à residência do menino. O perfil original da influenciadora, que reunia cerca de 70 mil seguidores, ficou indisponível após as críticas.

Depois, em uma nova conta, ela publicou um pedido de desculpas a Matheus e aos familiares. Disse que não queria transmitir aquela impressão e que espera ser perdoada. Eu não vou fingir que um texto resolve tudo, mas pedido de desculpas era o mínimo depois de uma exposição tão cruel.

Saí dali com as amigas em silêncio por alguns segundos, o que é raro para nós. A política já fez gente brigar por muita coisa, mas jamais deveria servir de desculpa para negar dignidade a uma criança que só estava tentando vender doces.



Mais informações: Jornal de Brasília

Últimas notícias

... O conteúdo do CN12 está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente do CN12 vivo e acessível a todos. A republicação é gratuita desde que citada a fonte.