O samba tem um jeito próprio de reunir pessoas. Na Feira Permanente do Gama, essa capacidade se transforma em encontro, música e pertencimento. O que começou como uma reunião entre amigos apaixonados pelo ritmo brasileiro cresceu, conquistou o público e chegou à 19ª edição do Tem Samba na Feira, projeto que leva apresentações musicais à região administrativa e fortalece a cena cultural fora do Plano Piloto.
Para quem acompanha o evento, a iniciativa representa mais do que uma oportunidade de ouvir música. Morador do Gama há 55 anos, o motorista Gilberto de Souza da Silva, de 60 anos, define a relação com a cidade de forma direta: “Amo o Gama, o Gama é meu coração”. Ele conta que esta é a terceira vez que participa do Samba e acredita que a região precisava de uma iniciativa como essa. “O samba da feira é só alegria. O samba da feira é tudo de bom”, resume.

A identificação com o lugar também aparece na fala de Rogério, microempreendedor e morador do Gama. Frequentador do evento, ele faz questão de prestigiar as iniciativas realizadas na própria cidade. “Nós temos que prestigiar o Gama”, afirma. Para ele, o encontro é uma oportunidade de valorizar a região e reconhecer a força de sua programação cultural.
De encontro entre amigos a evento tradicional
A dimensão que o Tem Samba na Feira alcançou hoje contrasta com a proposta inicial. Segundo o idealizador Jean Mussa, o projeto nasceu do desejo de reunir amigos para tocar samba, sem grandes pretensões. Ao lado de Guzão e Felipe Dariva, ele decidiu levar a ideia para a Feira Permanente do Gama e criar um espaço de convivência em torno da música.
Com o tempo, o encontro ganhou novos participantes e passou a atrair um público cada vez maior. A consolidação do projeto é percebida, principalmente, na expectativa criada entre os frequentadores, que procuram saber quando será a próxima edição.
“Eu acho que essa é uma das maiores conquistas da gente”, destaca Jean, ao falar sobre o crescimento da iniciativa e o vínculo construído com o público. Para ele, outro marco é a possibilidade de receber artistas de projeção nacional e aproximar eles dos admiradores do samba na região.
O crescimento também confirma a existência de uma demanda por atividades culturais no Gama. O projeto criou um espaço em que os moradores podem se encontrar sem precisar sair da própria região para acompanhar uma programação musical.
O samba como herança e sustento
Cavaquinista do evento, Felipe Dariva conhece essa relação com a música desde a infância. Criado no Gama, ele conta que sua trajetória e a de Jean estão ligadas à convivência com o samba e o pagode, ritmos que fazem parte de suas histórias pessoais.

A participação no projeto, segundo o músico, é uma maneira de compartilhar com a comunidade uma cultura que acompanha sua vida há décadas. Hoje morador de Santa Maria, ele mantém a ligação com a região onde cresceu e encontra no evento uma forma de contribuir para a vida cultural da cidade. “Para mim, é a minha vida hoje, de onde eu tiro, inclusive, o meu sustento”, afirma Felipe sobre o samba.
O músico também chama a atenção para a importância de preservar essa tradição musical brasileira. Com raízes que atravessam gerações, o samba permanece presente na vida de artistas e comunidades, seja como expressão cultural, seja como atividade profissional.
No Tem Samba na Feira, essa continuidade acontece no contato direto com o público. A música que os organizadores aprenderam a tocar ao longo da vida passa a ser compartilhada com moradores de diferentes idades, que encontram no evento uma oportunidade de manter viva a relação com o gênero.
Cultura para além do Plano Piloto
Para Jean Mussa, realizar o projeto no Gama também ajuda a questionar a ideia de que as principais experiências culturais precisam estar concentradas no Plano Piloto. Ele observa que muitos moradores das regiões administrativas costumam se deslocar para outras áreas do Distrito Federal em busca de eventos, enquanto iniciativas como o Tem Samba na Feira permitem que o movimento aconteça dentro da própria comunidade.
O idealizador destaca, ainda, que o público não se limita aos moradores da região. Segundo ele, pessoas de outras cidades também vão ao Gama para acompanhar as apresentações, ampliando o alcance do projeto.
A proposta é inverter a lógica de deslocamento e mostrar que as regiões administrativas também podem ser pontos de encontro e circulação cultural. Nesse cenário, a feira deixa de ser apenas um espaço de comércio e ganha outra função, a de abrigar manifestações artísticas e aproximar a população da música brasileira.