Ruanda atrai turistas ricos com gorilas e safáris – 12/05/2026 – Turismo

Nos anos 1990, Ruanda ocupava as páginas internacionais com notícias sobre o genocídio que dizimou 800 mil pessoas em apenas cem dias. A história é mais ou menos conhecida: a maioria hutu armou uma campanha contra a minoria tutsi. Vizinhos degolaram vizinhos, maridos denunciaram as próprias mulheres, corpos mutilados pipocaram à beira das estradas. O saldo de refugiados, órfãos e vítimas de estupro também foi colossal.

Passados mais de 30 anos, o governo local investe pesado em reposicionamento. A estratégia começou com patrocínios esportivos, estampados nas camisetas de clubes europeus de futebol, e com uma grana maciça vinda de grandes redes hoteleiras de Estados Unidos e Europa -potências que, aliás, se omitiram quando a nação africana mergulhou em guerra civil. Ruanda virou destino de luxo.

“Qualquer outro país teria colapsado, mas nós conseguimos mudar o status quo”, diz Irene Murerwa, que tem um cargo equivalente ao de ministra do Turismo local. Ela comandou uma delegação de ruandeses que esteve em São Paulo em maio para tentar incluir brasileiros entre os endinheirados que viajam até lá para ver gorilas nas montanhas, fazer caiaques em lagos e embarcar em safáris.

Para o governo. O objetivo é associar o pequeno país da África Oriental a estabilidade, organização e alto padrão. “É um país extremamente limpo, muito verde”, afirma Murerwa. Ela descreve a capital Kigali como uma cidade de infraestrutura moderna, hotéis e restaurantes sofisticados, além de arena de shows internacionais que já receberam Kendrick Lamar, John Legend e Doja Cat.

“Você pode passar de sete a dez dias em Ruanda e ver boa parte do que veria na África”, diz, elencando as paisagens de savana mais a leste e as montanhas a oeste. A principal atração segue sendo o trekking para observação dos gorilas-das-montanhas, espécie ameaçada encontrada na região vulcânica do país. “Temos metade da população de todo o continente”, conta Murerwa.

Desde que a campanha Visit Rwanda foi lançada, em 2017, aparecendo nos uniformes de times como Arsenal e PSG, a receita turística saltou, segundo ela, de US$ 400 milhões para cerca de US$ 690 milhões. “Alguém está vendo futebol em casa e pensa: que país é esse que aparece em todo lugar? Vou visitar”, diz.

O modelo, porém, tem um preço. No poder desde 2000, Paul Kagame aboliu por decreto as distinções étnicas que no passado causaram um morticínio —se antes todo habitante tinha de ostentar na própria carteira de identidade se era tutsi ou hutu, hoje é proibido por lei falar em etnia. A estratégia parece ter apaziguado o país, mas os críticos do presidente costumam dizer que ele é pouco aberto a dissidências.

“Ele lidera pelo exemplo”, afirma a encarregada do turismo. “Se ele acorda mensalmente para limpar as ruas, por que os outros também não podem?” Ela se refere ao “umuganda”, feriado nacional que cai nos últimos sábados de cada mês em que todos os cidadãos são obrigados a prestar serviços públicos como construir escolas e plantar árvores.

O milagre de Ruanda, que fez do país um dos mais seguros em todo o continente, também tem um preço. A indústria hoteleira ali está ancorada no princípio do “”low volume, high value”, isto é, que privilegia experiências caríssimas para não sucumbir ao turismo de massa. A visita aos gorilas, por exemplo, custa um preço tabelado de US$ 1.500 (ou R$ 7.370) por pessoa.

“Mas não é uma cobrança aleatória”, diz Murerwa. “É o custo de manter esses índices.”

Fonte: Folha de São Paulo

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