Formato não é linguagem (ou ‘Aprendendo a rir direito’)

Enquanto se esforçam para fazer a mensagem “caber” em novos formatos, ignoram que o problema é que desconhecem a linguagem a ser falada. E a consequência disso é um anacronismo que prejudica o diálogo que se pretende estabelecer.

É compreensível que o façam dessa forma. Afinal, o formato é só o que enxergamos de distinção entre o que produzimos e o que se consome. Perfis populares nas redes sociais, vídeos curtos, fóruns de jogos e grupos de conversas parecem, para o olhar de fora, um remendo de mensagens curtas, recortadas e desconexas.

Sustenta essa premissa o fato de as primeiras ondas de transformação de qualquer mídia terem sido acerca de mudanças de formato. A plataforma, afinal, era o canal. E cada plataforma demandava um tipo de formato. Foi assim com meios tradicionais (rádio, tv, jornais e revistas) e foi assim, por muitos anos, com meios digitais também. A mudança de um site acessado pelo computador para um site acessado em dispositivo móvel era mais uma reconfiguração de dimensão. Assim foi a transição da rolagem com mouse para as telas sensíveis ao toque ou da construção de sites próprios para a distribuição através de canais em redes sociais e plataformas. O ajuste a ser assimilado era sempre uma edição do conteúdo originalmente produzido. Assumimos, portanto, que nesse estágio também seria assim.

Há boas pesquisas sendo feitas para apoiar a decisão dessas marcas. Nas últimas semanas, o Reuters Institute divulgou dados atualizados do seu relatório sobre consumo de notícias por jovens dando conta de que, sim, priorizam plataformas sociais, vídeos e vozes autênticas em seu consumo de informação cotidiano. Isso é analisado também em relatórios de tendências, como o Next Gen News da FT Strategies com o Knight Lab e essa reportagem na The Verge sobre consumo de notícias no TikTok.

No entanto, ao se debruçar sobre esse tema tendo em vista apenas a perspectiva geracional, ignoram tratar-se de um comportamento que extrapola uma faixa etária. A fragmentação da mensagem acabou criando uma nova linguagem. Adaptar o formato já não basta quando o conteúdo também mudou. Não resolve ter vídeo vertical, clipes curtos, edições com imagens sobrepostas estourando na tela e escalar uma pessoa mais jovem gritando em frente à câmera do outro lado. Soa como um cosplay geracional que além de não ser legítimo, é anacrônico.

Aprender uma nova linguagem passa pela construção nativa do discurso. Em especial porque não se trata exatamente de construir pontes com jovens consumidores, mas de todo universo que consome informação a partir de plataformas sociais (e ria usando kkkkk). Seja qual for o recorte demográfico dessa audiência, essa se tornou a linguagem nativa de usuários dessas redes. Não necessariamente na forma de se expressar mas no tipo de conteúdo que consome. Os jovens apenas são nativamente fluentes e, por essa razão, assimilaram e disseminaram isso intuitivamente.



Fonte: UOL

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