Considerado o “rei mundial dos fertilizantes”, o oligarca russo Andrey Melnichenko fez algo que já acabou mal para muita gente na Rússia: concedeu uma entrevista de mais de 60 horas à revista britânica The Economist, na qual assume uma postura que pode ser vista como crítica ao regime de Vladimir Putin.
Ele descreve cenários após o fim da guerra com a Ucrânia em que seu país poderia se tornar uma ditadura hermética, como a da Coreia do Norte, ou um ambiente de anarquia, tomado pelo caos e com um arsenal nuclear que pode ser detonado a qualquer momento.
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Ato de coragem
Um magnata que mora na Rússia conceder uma entrevista neste momento é um ato difícil de compreender. Desde o início da invasão da Ucrânia, em 2022, dezenas de oligarcas, executivos de alto nível (especialmente de empresas de energia como Gazprom e Lukoil) e figuras anteriormente leais ao Kremlin apareceram mortos em circunstâncias misteriosas.
Os episódios envolveram quedas de janelas, “suicídios” mal explicados, infartos repentinos, desastres aéreos, acidentes ou assassinatos disfarçados com o suposto uso de substâncias indetectáveis.
O número total de casos gira na casa das dezenas, apenas entre empresários e executivos, podendo passar da casa dos 60 se incluídos os oficiais das forças russas e das milícias mercenárias.
Muitos dos episódios envolveram pessoas ligadas ao meio empresarial que criticaram publicamente a invasão da Ucrânia, embora não necessariamente o próprio Putin de forma direta. Outros ex-aliados simplesmente se desgraçaram.
Fazer uma declaração pública que coloca em dúvida a liderança de Putin seria, portanto, no mínimo um ato de grande coragem.
E foi justamente a coragem que conquistou o presidente russo no primeiro encontro com o empresário, segundo o relato do próprio Melnichenko:
“Vladimir Vladimirovich, sinceramente, eu entendo que as pessoas geralmente o procuram por pelo menos um destes dois motivos: ou estão com medo, por haver algum problema, ou querem algo: um cargo, um favor… Quanto ao medo, é claro que sinto: tenho 100% de medo, como qualquer outra pessoa. Por que negar? Não tenho medo de nada em particular, a menos que haja algo em sua pasta. Mas, se houver, por favor, me diga, para que eu saiba pelo menos o que temer.”
Patriotismo
Nessa primeira conversa no Kremlin, Melnichenko teria demonstrado interesse em contribuir com o futuro do país.
Mais do que isso: identificou como problema da oligarquia russa uma mentalidade que não vinculava o destino das oligarquias ao da nação.
Para ele, o Ocidente teria mentido ao garantir aos empresários russos o direito a uma fortuna que, ao menor sinal de instabilidade, acabou congelada nos bancos. O iate do bilionário foi apreendido pela polícia italiana.
“Não se pode ter um país para fazer dinheiro e outro para ter segurança, viver e construir o futuro da família”, teria dito o magnata.
O discurso agradou a Putin, que há muito tempo alertava os oligarcas de que eles não seriam verdadeiramente bem-vindos no Ocidente.
Rússia humilhada seria perigosa
Hoje, este mesmo magnata, considerado o homem mais rico da Rússia, adverte que uma eventual humilhação do país por derrota militar na Ucrânia pode mergulhar a sociedade daquele país em um sentimento de revanchismo perigoso.
Ele não afirma diretamente que Putin deva ser destituído, mas pontua que “um país privado de autonomia estratégica acabará por aceitar as regras daqueles que o privaram dela”.
Seus pensamentos foram reunidos em um amplo artigo analítico sobre os impactos do conflito na Ucrânia para o futuro da Rússia.
O empresário expôs quatro cenários pós-guerra, todos considerados por ele sombrios:
- Reintegração periférica: a Rússia volta a se isolar e é reintegrada à ordem ocidental, porém confinada a uma posição secundária. Para Melnichenko, isso soa como vassalagem, e uma Rússia humilhada quase certamente geraria um “revanchismo agressivo”.
- Dependência da China: o país seria permanentemente atraído para a órbita chinesa, funcionando como zona-tampão e fornecedor de recursos naturais. Com isso, a China passaria a ser responsabilizada pelos problemas locais e enfrentaria a rejeição da população russa. “A China ficaria satisfeita em tirar proveito da assimetria na relação, mas sem pressa em formalizá-la”, argumenta. Segundo ele, a única diferença entre estes dois primeiros cenários é a identidade do “suserano feudal”.
- Guerra civil e fragmentação: considerado “inteiramente plausível” pela The Economist, o cenário prevê a Rússia mergulhada em um conflito interno, com diferentes senhores da guerra disputando recursos escassos. Uma Rússia em frangalhos e detentora de armas nucleares era o pior pesadelo dos EUA na queda da União Soviética — e continua sendo. “Uma Rússia em frangalhos pode ser uma imagem atraente em discursos políticos, mas é muito menos atraente do ponto de vista da gestão de riscos”, pontua.
- Isolamento total (Modelo Coreia do Norte): apoiado por setores da segurança e debatido no Kremlin, representa ameaça direta a Melnichenko e à elite russa. Envolve militarismo, repressão, racionamento e exportação de instabilidade. “Uma Rússia aprisionada na mentalidade de fortaleza permanente transformaria o confronto externo em um instrumento constante de política interna”, declarou.
A única alternativa a esses cenários, segundo Melnichenko, seria a Rússia se tornar um país “soberano”, que priorizasse o bem-estar de seu povo e mantivesse um comportamento previsível perante o mundo.
Figuras que se manifestaram contra Putin e apareceram mortas
Executivos da Gazprom e Novatek, como Leonid Shulman, Alexander Tyulyakov, Vladislav Avayev e Sergey Protosenya morreram em “suicídios” ou quedas não esclarecidas.
Embora nem todos fossem críticos declarados, o momento das mortes levantou suspeitas de eliminação ou intimidação política.
Ravil Maganov (presidente da Lukoil): sua empresa fez uma rara declaração pública contra a guerra. Ele “caiu” da janela de um hospital em Moscou em setembro de 2022.
Boris Berezovsky: oligarca clássico que se tornou crítico ferrenho de Putin no exílio (Reino Unido). Foi encontrado morto em 2013 (oficialmente suicídio por enforcamento, mas sob fortes suspeitas).
Yevgeny Prigozhin (Fundador do Grupo Wagner): rebelou-se abertamente contra a cúpula militar em 2023. Morreu em uma queda de avião com suspeita de bomba a bordo.
Outros executivos da Lukoil: nomes como Vladimir Nekrasov, Alexander Subbotin e Vitaly Robertus faleceram em episódios suspeitos após a empresa criticar a guerra.

