‘Quanto mais sucesso tenho, mais frustrantes são meus erros’, diz brasileiro da NFL

(FOLHAPRESS) – Aos 34 anos, o brasileiro Cairo Santos sabe que, na NFL (National Football League), experiência não é garantia de emprego. Mesmo depois de conquistar espaço na liga e renovar seu contrato com o Chicago Bears por quatro temporadas, o kicker precisa provar seu valor a cada ano diante da concorrência de jogadores mais jovens.

“Cada ano que passa na minha idade, tenho que lutar mais para acompanhar o ritmo”, afirmou à Folha de S.Paulo.

A pressão não é apenas esportiva. No terceiro ano de seu vínculo, o paulista de Limeira tem apenas mais uma temporada de contrato pela frente, mas não tem garantia de continuar no time até o fim do acordo. Ele assinou uma extensão de quatro anos há dois, mas somente os dois primeiros eram garantidos.

“O time pode me cortar depois da temporada ou mesmo durante ela, sem me dever o restante do salário, e contratar outro kicker”, explicou o brasileiro.

A disputa pela posição faz parte da rotina de Cairo. Nos últimos anos, o Bears tem contratado jogadores para competir com ele. O brasileiro diz que venceu a concorrência e manteve a vaga, mas sabe que precisa repetir o desempenho a cada ano.

“Conquistar minha vaga novamente é algo que me motiva na preparação antes da temporada.”

A necessidade de responder à pressão apareceu em um dos momentos recentes de sua carreira. Depois de errar um chute de 53 jardas contra o New England Patriots, Cairo teve outra oportunidade pouco depois e acertou de 58 jardas, a maior marca de sua carreira.

Para chegar ao segundo chute, precisou superar a frustração do erro e convencer a comissão técnica a confiar nele novamente. “A primeira intenção do nosso técnico [Ben Johnson] era fazer o punt e colocar a defesa em campo. Quando vi aquilo, fui falar com meu técnico de ‘special teams’ que queria chutar, porque estava dentro do meu alcance.”

“Ele levou a mensagem ao Ben Johnson, que demonstrou confiança em mim”, acrescentou Cairo, que passou a lidar com os próprios erros de forma diferente ao longo dos anos.

“Quanto mais sucesso tenho na carreira, mais frustrantes ficam os erros, porque sinto que melhoro a cada ano e sou capaz de melhorar meus números na temporada e o alcance dos meus chutes. A frustração com o erro me consome mais hoje do que no começo da carreira”, afirmou.

A confiança da comissão técnica tem sido importante nesta fase da carreira de Cairo, em uma temporada na qual ele tem errado mais chutes do que o habitual.

Em sete jogos, o kicker acertou 11 dos 15 field goals tentados, com aproveitamento de 73,3%, e converteu todos os seus 21 extra points. Até agora, errou um chute de 43 jardas no clássico contra o Green Bay Packers, outro de 56 jardas na vitória sobre o Atlanta Falcons e teve uma tentativa de 23 jardas bloqueada na derrota para o Minnesota Vikings, além do chute de 53 jardas contra os Patriots.

Cairo, no entanto, também tem sido decisivo. No jogo contra os Patriots, acertou o field goal de 58 jardas que garantiu a vitória por 30 a 24. Até a sétima rodada, havia marcado 54 dos 180 pontos do Bears, que tinha campanha de cinco vitórias e duas derrotas.

O brasileiro é o kicker mais preciso da história do Bears, com 87,2% de aproveitamento nos field goals convertidos pela franquia. Ele ainda se considera na melhor fase da carreira, mas admite que nem isso assegura sua permanência no time.

“Posso terminar o ano muito bem, mas o time pode querer seguir outro caminho, apostar em um jogador mais jovem, e eu acabar indo para a free agency [mercado de agentes livres]”, disse.

Independentemente de quando deixar a liga, Cairo já tem planos para o futuro. O brasileiro quer usar sua experiência na NFL para abrir portas para outros atletas do país.

“Acredito que o Brasil deve ter centenas de kickers que não sabem que são kickers. São pessoas que jogam futebol, têm talento, têm habilidade com a bola, mas não conhecem esse caminho”, afirmou.

O próprio kicker, contudo, reconhece que não é fácil chegar à liga, sobretudo pelo investimento financeiro necessário para bancar os estudos em uma universidade americana.

“O percurso para sair do Brasil e chegar à NFL é realmente difícil. Consegui fazer isso por meio de um intercâmbio quando tinha 15 anos, no ensino médio, nos Estados Unidos. Isso me deu a oportunidade de praticar o esporte e jogar partidas nas quais as universidades observam os atletas em busca de talentos.”

Há, porém, uma oportunidade para quem se interessar pela liga agora, já que a própria NFL busca estreitar suas relações com o Brasil. Pelo terceiro ano consecutivo, o país recebeu uma partida da liga. Depois de dois jogos em São Paulo, em 2024 e 2025, o Rio de Janeiro foi palco, no mês passado, do confronto em que o Baltimore Ravens venceu o Dallas Cowboys por 34 a 31, no Maracanã.

A NFL anunciou um acordo de cinco anos com o Rio de Janeiro, a partir de 2026, para realizar pelo menos três partidas de temporada regular na cidade.

“É um momento maravilhoso, um sonho se tornando realidade. É muito bom ver a liga investindo no Brasil e ver o país consumindo o produto da NFL dessa forma”, disse Cairo.

Seu desejo, claro, é que a NFL leve ao Brasil, em breve, a franquia pela qual atua. “Sempre brinco com o Roger [Goodell, comissário da liga] e dou uma cutucada: ‘Roger, se quiser levar o Bears para lá, vai ser bonita a festa'”, brincou Cairo.

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Notícias ao Minuto | 06:43 – 03/11/2026

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