Por que viajantes repetem os mesmos roteiros? – 18/09/2026 – Turismo

Torre Eiffel, Estátua da Liberdade e Cristo Redentor. Alguns pontos turísticos são tão associados às cidades que viraram quase sinônimos delas. O curioso é que Paris, Nova York e Rio de Janeiro têm outros lugares com atributos parecidos que nunca chegaram nem perto da mesma fama.

Na capital francesa, a histórica Tour Saint-Jacques fica à sombra da Torre Eiffel. Em Manhattan, o centenário Little Red Lighthouse passa longe dos roteiros de quem visita Nova York pela primeira vez. No Rio de Janeiro, mirantes como a Vista Chinesa e o Dona Marta oferecem vistas panorâmicas da cidade, mas não conquistaram o mesmo status do Cristo Redentor.

Antes de tentar entender por que turistas se concentram nos mesmos pontos, a engenheira de software Erica Fischer decidiu primeiro descobrir se eles enxergavam as cidades da mesma forma que quem morava nelas. Em 2010, a americana analisou fotos geolocalizadas publicadas no Flickr e criou mapas que separavam os registros de visitantes e moradores em diferentes cidades do mundo.

“Eu identifiquei quem parecia morar na cidade e quem estava apenas de passagem”, diz Fischer. Com essa lógica, ela criou os mapas do projeto Locals and Tourists. O trabalho mostrou que moradores e turistas não registram necessariamente a mesma cidade. Enquanto quem vive em um lugar espalha seus registros por áreas mais diversas, visitantes tendem a concentrar sua atenção em determinados pontos.

Para Fischer, parte dessa concentração vem de um efeito de repetição, um comportamento recorrente entre viajantes. “Alguém vai a um lugar e escreve sobre ele. Então mais pessoas vão até lá para terem suas próprias experiências”, diz. Esse ciclo ajuda a consolidar certos pontos no roteiro turístico e, muitas vezes, reduz o espaço para que visitantes explorem a cidade por conta própria e descubram caminhos fora do circuito mais conhecido.

Outro padrão que chamou sua atenção foi a quantidade de registros ligados à água. Áreas costeiras, rios e trajetos de barco aparecem com frequência nos mapas.

Ainda assim, Fischer diz não ter encontrado uma fórmula capaz de explicar por que alguns lugares se transformam em atrações turísticas e outros, com características parecidas, passam quase despercebidos. Nos mapas, ela identificou alguns padrões: turistas costumam se concentrar em áreas com lojas, restaurantes, edifícios históricos e paisagens marcantes. Há, porém, muitos lugares com esses mesmos atributos que não conseguem atrair visitantes.

A história associada ao lugar também pesa. Para ela, os visitantes não procuram apenas algo visualmente interessante. Eles querem entender por que aquele espaço importa. A ligação com um acontecimento histórico, uma personalidade conhecida ou uma narrativa já consolidada pode ajudar a transformar um prédio, uma rua ou uma paisagem em ponto de interesse.

A tendência de seguir circuitos conhecidos, diz ela, é anterior às redes sociais. “Muito antes de existir Instagram ou TikTok, já havia guias dizendo: estes são os lugares que você deve conhecer”, afirma. Para ela, quem tenta fugir desses roteiros precisa fazer um esforço deliberado. A própria infraestrutura turística já orientava os visitantes para determinados lugares.

Questionada sobre o interesse em refazer o projeto com dados atualizados, Fischer diz que o principal obstáculo é o acesso às informações. Em 2010, plataformas como o Flickr ofereciam dados de localização por meio de APIs, interfaces que dão a programas acesso automatizado às informações disponibilizadas por um serviço. Hoje, as redes sociais restringem esse tipo de acesso e tratam os dados como um ativo comercial.

Mais de 15 anos depois, os mapas de Fischer ganharam também valor histórico. Ela vê o trabalho como o retrato de um momento específico, capaz de mostrar quais áreas despertavam interesse em meados de 2010. Além de revelar como a geografia turística de uma cidade pode mudar com o tempo.

Hoje, outras plataformas deixam rastros diferentes. O Strava, por exemplo, mantém um mapa de calor que mostra por onde os usuários caminham, correm e pedalam com mais frequência. A ferramenta não separa turistas de moradores. A diferença é que, enquanto os mapas de Fischer mostravam sobretudo onde as pessoas paravam para fotografar, plataformas como o Strava ajudam a enxergar por onde elas efetivamente se deslocam.

As técnicas para analisar esses rastros também ficaram mais sofisticadas. Hoje, pesquisadores conseguem processar grandes volumes de fotografias geolocalizadas e usar inteligência artificial para identificar não apenas onde uma imagem foi feita, mas também o que ela mostra e que tipo de atividade turística estava sendo realizada.

Outros trabalhos chegaram a conclusões que reforçam os mapas de Fischer. Turistas tendem a registrar uma parcela mais restrita das cidades do que moradores.

Uma pesquisa publicada na revista Applied Geography analisou fotografias geolocalizadas de turistas e moradores em oito cidades europeias, entre elas Paris, Londres, Roma e Barcelona, e encontrou maior concentração espacial entre as imagens dos visitantes. Roma e Barcelona apresentaram padrões especialmente concentrados, enquanto Londres e Paris tiveram registros mais dispersos.

A concentração também aparece quando o objeto de análise deixa de ser apenas a fotografia e passa a ser o deslocamento. Estudos sobre comportamento turístico urbano apontam que visitantes costumam circular por áreas relativamente pequenas, onde diferentes atrações ficam próximas umas das outras.

Esse movimento está associado tanto ao tempo limitado da viagem quanto à tentativa de conhecer vários pontos em poucos dias. No fim, mesmo em cidades cheias de alternativas, boa parte dos visitantes percorrem uma versão que eles já conhecem.

Fonte: Folha de São Paulo

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