Maranhão quer ser o centro do afroturismo no Brasil – 28/10/2026 – Turismo

“Antes, não éramos vistos. Agora, queremos ser vistos e lembrados.” É o que deseja Eremilton Ferreira, presidente da comunidade quilombola Santo Antônio, com a abertura do povoado para o turismo. Esse é um dos quilombos de Serrano do Maranhão, a cidade mais preta do Brasil segundo o IBGE (58,74% da população autodeclarada).

A comunidade existe há mais de dois séculos e os moradores se mantêm basicamente da pesca artesanal na água doce. A pouco mais de 2 km da cidade, as 183 famílias levam uma vida humilde em uma área de preservação natural, rica em biodiversidade e também de simbolismos.

“Temos muito o que mostrar aqui. O turista que vier vai admirar a riqueza natural da região e conhecer nossa história, nossa ancestralidade”, afirma Ferreira.

O município é uma das 15 cidades maranhenses que passaram a fazer parte do Caminho dos Guarás, rota turística lançada em 2025 para fomentar o turismo ecológico e de base comunitária no estado. O trajeto de pouco mais de 230 km, entre terra e mar, é uma aposta para fazer o Maranhão se tornar uma referência no afroturismo brasileiro.

Isso porque a rota —que integra os já existentes polos turísticos de São Luís e Floresta dos Guarás— concentra grande parte das comunidades tradicionais do Maranhão, que até hoje preservam o seu saber ancestral ligado às suas raízes africanas.

O Maranhão reúne o maior número de quilombos no país, segundo o último Censo do IBGE. São 2.025, o que representa em torno de 24% do total no Brasil. A Bahia vem em seguida, com 1.814.

Gestora de turismo cultural do Sebrae no estado, Flavia Nadler diz que a hospitalidade maranhense pode ser transformada em oportunidade de gerar retorno sem deixar de lado a simpatia e o calor humano, características dos quilombolas. “Temos atuado nessas comunidades para fortalecer esses pequenos negócios, oferecendo consultoria na elaboração de roteiros e produtos turísticos, além de aprimorar projetos já existentes”, diz Nadler.

Após participarem de um curso sobre turismo, os moradores do Quilombo Cumum, no município de Guimarães, perceberam que tinham em mãos a oportunidade de gerar uma nova fonte de renda e passaram a vender bolinhos de tapioca para os turistas que passavam pelo local.

“O turismo já ajuda a alavancar o desenvolvimento da nossa comunidade. O turista compra nosso produto e leva a nossa história para mais longe”, diz Josenilson Carvalho, líder comunitário.

Outra iniciativa similar surgiu no Quilombo Damásio, também em Guimarães. Os moradores montaram uma quitanda às margens do rio Passadinha, onde o turista pode encontrar opções de alimentos, bebidas e também artesanato. A limpeza do rio é mantida pelos próprios moradores, para garantir uma boa experiência aos visitantes.

O turista não paga nada para se banhar. Mas quem quiser pode provar pratos típicos como arroz de cuxá, juçara, buriti e molho de bacuri. E, ainda, assistir a uma apresentação de tambor de crioula do grupo Boi Guimarães —tudo mediante agendamento.

Líder do quilombo, Valmir Goulart acredita que o turismo pode contribuir para reter os jovens na comunidade, já que muitos têm deixado o povoado em busca de trabalho na cidade. “Precisamos que os jovens permaneçam aqui para ajudar no nosso desenvolvimento. Os idosos já fizeram a parte deles, e agora precisamos dos jovens para fazer nossa comunidade crescer ainda mais”, diz.

Ainda que não sejam maioria, em alguns locais as novas gerações estão ocupando lugar de destaque. O Quilombo Entre Rio, em Cururupu,por exemplo, é liderado por Anderson Ribeiro. Para atrair turistas e renda para a comunidade, ele aposta no rio da Estiva, que tradicionalmente já atrai muitos locais.

“Como o rio já é um chamariz, vamos fazer um quiosque e um playground com brinquedos para que as pessoas queiram passar mais tempo aqui”, diz ele.

Com a estratégia, eles têm a esperança de conseguir reter os moradores. “União é o que faz os jovens quererem ficar. Estamos lutando para fazer a comunidade continuar e se manter”, afirma Tomas Ribeiro, ex-líder comunitário e tio de Anderson.

Mais informações: Folha de São Paulo

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