Influenciadores políticos e a bancada do like

Mas, depois de eleitas, essas figuras perdiam espaço no ambiente midiático que as projetou (porque esse se tornava incompatível com o cargo que assumiram), passavam a habitar o limbo de Brasília e restringiam sua aparição ao noticiário político – ou, não raro, policial.

O que vem acontecendo nos dois últimos ciclos eleitorais segue um novo padrão: o uso das redes sociais para eleger personagens que são frutos das próprias redes. Influenciadores que constroem audiência em torno de causas e valores ao longo do tempo e tiram proveito do público que acumulam para se lançarem candidatos antes de terem uma carreira pública para defender. Uma vez eleitos, em vez de mudar o ambiente de debate, continuam fazendo uso de seus canais para ampliar capital eleitoral e preservar seu papel como influenciadores – às vezes, exclusivamente, já que alguns não chegam a apresentar projetos de lei de interesse público.

Esse fenômeno ganhou um nome: a “bancada do like”. Estudo da FGV Comunicação calculou que deputados com alto engajamento digital tiveram 88% de reeleição este ano (entre eles, o próprio André Janones), ao passo que entre os de pouca presença digital esse índice foi de 60%. Isso não significa necessariamente que todos sejam originalmente influenciadores (na lista também constam Tabata Amaral, Mario Frias e Lindbergh Farias, por exemplo), mas que sua presença digital passou a ter papel central no processo de decisão. Os três candidatos mais votados a deputado federal em 2026 foram Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton que, juntos, receberam mais de 7,7 milhões de votos. O ponto comum entre os três é que sua projeção política se deve à atuação digital.

Uma vez que sua fama está consolidada nesses canais e a relação direta com seus seguidores é contínua, quase não há fiscalização sobre quanto de sua atuação digital e parlamentar serve, de fato, ao interesse público. Muitos usam suas plataformas pessoais para inflamar a população em torno do que lhes convém, pautar o debate público e, com isso, contribuem para acentuar o abismo ideológico. Da mesma forma que foram capazes de fazer a manipulação algorítmica para ganhar fama, também usam a popularidade conquistada para induzir suas audiências. O que era bolha vira mainstream.

Agora, se existem regras de isonomia aplicadas a outros meios para a visibilidade do espaço dado a políticos e partidos, também seria importante existir paridade no ambiente digital. Cabe ao poder público regular e à sociedade civil debater o papel que essa zona de influência exerce e, a partir disso, pensar sob quais diretrizes gostaríamos que os políticos influenciadores – e, em especial, as redes em que atuam – funcionem em uma sociedade como a nossa.

Esse é um ponto que já vem sendo discutido em outros países e levou a Meta (dona do Facebook, Instagram, WhatsApp e outros produtos) a iniciar testes em que o usuário pode customizar as recomendações no próprio feed e promover ajustes das contas de menores de idade. Iniciativas semelhantes têm sido testadas pelo YouTube. Suas ações, no entanto, concorrem com a pressa com que alguns países correm em busca de ações mais rígidas.



Mais informações: UOL

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