
EUA e China abriram um novo capítulo na disputa por influência na América Latina ao voltarem sua atenção para uma região que é uma das principais promessas de investimentos na Argentina: Vaca Muerta, uma joia energética considerada uma das maiores reservas não convencionais de gás e petróleo do mundo.
O estopim dos novos atritos foi a descoberta de operações da Huawei, uma das gigantes de tecnologia no mundo que mantém laços com o regime de Xi Jinping, no país sul-americano. Washington interveio diretamente em uma negociação entre a empresa tecnológica chinesa e a cooperativa argentina CALF, que previa a importação de equipamentos para expandir a rede de fibra óptica na região de Vaca Muerta, onde operam empresas de energia de diversos países, incluindo dos EUA.
Diante do avanço do acordo comercial, o embaixador americano na Argentina, Peter Lamelas, enviou um recado duro à Argentina durante um fórum de energia em Buenos Aires, argumentando que a presença de empresas chinesas no país estaria afastando investimentos no polo energético estratégico.
O representante do governo de Donald Trump afirmou posteriormente que os EUA estariam interessados em promover o financiamento público e privado de projetos de energia e tecnologia na Argentina e incentivou os líderes empresariais presentes no fórum a investir e buscar assistência da embaixada dos EUA para o desenvolvimento de seus projetos.
Como forma de pressão, a Embaixada dos EUA enviou uma carta a um dos gerentes da CALF, alertando que os vistos de seus executivos poderiam ser revogados caso o acordo comercial com a Huawei não fosse cancelado – uma medida que a embaixada chinesa na Argentina criticou em um comunicado. O contrato não foi cancelado, mas os americanos continuam pressionando.
Risco de espionagem da China na Argentina ou disputa geopolítica?
Um dos receios expressos pelos EUA com a atuação da Huawei na Argentina é o risco de espionagem, por se tratar de uma empresa de tecnologia com histórico de laços com a ditadura chinesa.
A professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Natali Hoff, doutora e mestre em Ciência Política, destaca que, por se tratar de uma empresa de telecomunicação que lida com dados críticos e estratégicos, ligados ao contexto contemporâneo de manuseio desse tipo de informação, nunca podemos descartar esse risco de uso mal intencionado.
“Sempre que você tem a presença de uma empresa estrangeira no território, oferecendo serviços como esse de 5G com acesso a infraestrutura crítica, seja chinesa, norte-americana ou brasileira, é importante ter considerações securitárias e estratégicas a respeito disso”, afirma.
A analista pontua que a disputa mais recente envolvendo EUA e China na Argentina está mais atrelada a uma rivalidade geopolítica por influência na região.
Hoff destaca que essa rivalidade China-EUA vem se acirrando de maneira muito significativa nos últimos anos, desde o governo de Barack Obama até agora com o governo de Donald Trump. “A visão estratégica dos EUA vem mudando, de forma a entender que a ascensão chinesa representa uma ameaça para a posição que Washington ocupa hoje no mundo, de uma perspectiva geopolítica e setorial nesse campo tecnológico”.
Para além de um atrito diplomático com a China, a pressão exercida pelo governo Trump sobre a Huawei remonta ao primeiro mandato de Trump, em 2019, quando ele assinou um decreto de emergência nacional que baniu a empresa da cadeia de suprimentos dos EUA.
Relação do regime chinês com a Huawei
Uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) diz que o Partido Comunista Chinês (PCC) utiliza uma capacidade abrangente para explorar cadeias de suprimentos globais por meio de uma fusão de doutrina militar, estratégia de inteligência e controle estatal sobre empresas nominalmente privadas, como é o caso da Huawei.
Embora a gigante tecnológica tente afastar rumores de laços com o regime de Xi Jinping, sua atividade na construção de infraestrutura de redes móveis e dispositivos de rede para o consumidor a coloca em simetria aos planos estratégicos de Pequim.
Assim como todas as empresas de tecnologia da China, a Huawei está sujeita às diretrizes do PCC e mantém laços de longa data com os setores de defesa e inteligência chinesa. Um dos indícios que sugerem a ligação é que seu fundador, Ren Zhengfei, é um ex-militar que exerceu o cargo de oficial de tecnologia no Exército Popular de Libertação (PLA).
Em troca da parceria com o Estado, a Huawei se beneficiaria de financiamento público para desenvolver seus serviços e celebrar contratos de defesa que impulsionam sua pesquisa e avanço na disputa global de novas tecnologias.
A Gazeta do Povo solicitou um posicionamento da empresa sobre as alegações, mas não houve retorno até o momento da publicação. O espaço segue aberto para possíveis atualizações.