
Políticos de esquerda e partidos ambientalistas têm criticado o uso de ar-condicionado na Europa mesmo em meio a uma onda de calor recorde que já fechou escolas, pressionou hospitais e aumentou o debate em vários países do continente sobre a proteção de idosos, crianças e outros grupos vulneráveis nesse período de altas temperaturas.
A discussão ganhou força especialmente na França, onde as temperaturas se aproximaram de 40°C e o país registrou na terça-feira (23) seu dia mais quente da história recente, segundo a BBC. Durante a onda de calor que o país vem enfrentando, milhares de escolas francesas precisaram fechar ou reduzir suas atividades, enquanto profissionais de saúde relataram condições difíceis de trabalho em hospitais.
De acordo com a BBC, hospitais e escolas francesas raramente contam com sistemas de refrigeração. Por este motivo, políticos da direita francesa têm defendido a instalação de sistemas de refrigeração nesses locais. Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional, da direita nacionalista francesa, defendeu nesta semana a criação de um plano nacional de instalação de ar-condicionado em escolas, hospitais e casas de repouso para idosos, sob o argumento de que o Estado precisa proteger a população mais vulnerável durante ondas de calor cada vez mais fortes no país.
Le Pen, que tenta reverter na Justiça uma condenação que hoje a impede de disputar a eleição presidencial de 2027, afirmou que é “absurdo” deixar pessoas morrerem de calor e disse que, “se eleita” para a presidência no ano que vem (caso consiga reverter sua inelegibilidade), vai trabalhar na criação de um amplo plano de refrigeração para locais com populações mais vulneráveis. O partido de Le Pen também propôs a criação de empréstimos subsidiados para permitir que milhões de famílias instalem aparelhos de ar-condicionado em suas casas. Conforme a imprensa francesa, a legenda tenta transformar o tema em uma crítica às políticas ambientais defendidas pela esquerda e pelos verdes, que são acusados pela direita de dificultar uma resposta rápida ao calor extremo.
Os esquerdistas, por sua vez, têm tentado limitar o aumento do uso de ar-condicionado na França, mesmo em meio à emergência provocada pelo calor. O principal argumento desses grupos é que o uso generalizado desses aparelhos aumentaria o consumo de energia, pressionaria redes elétricas antigas e poderia piorar o próprio aquecimento das cidades.
A crítica parte da ideia de que o ar-condicionado resfria ambientes fechados, mas joga ar quente para fora dos prédios. Em áreas urbanas densas, esse efeito pode aumentar as chamadas “ilhas de calor”, quando ruas, concreto e edifícios retêm temperatura e deixam as cidades ainda mais quentes. Ambientalistas de esquerda também apontam o risco de vazamento de gases usados em sistemas de refrigeração, que contribuem para o chamado “efeito estufa”.
O líder de extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon se posicionou contra a instalação ampla de aparelhos pelos país. Ele afirmou que não é possível colocar ar-condicionado “em todos os lugares” e classificou a medida defendida pela direita como uma “falsa solução” que agravaria o problema. Partidos verdes também defendem que a prioridade deve ser “reformar prédios, melhorar o isolamento térmico, ampliar áreas verdes e criar sistemas de ventilação natural”.
Na França, uma regra nacional em vigor desde 2022 proíbe bares, cafés e restaurantes de usar sistemas de ar-condicionado ou aquecimento em terraços abertos. A medida foi adotada sob argumento ambiental, para evitar o consumo de energia usado para resfriar ou aquecer espaços ao ar livre.
Além disso, estabelecimentos que usam ar-condicionado ou aquecimento em ambientes internos são obrigados a manter portas e aberturas fechadas quando os equipamentos estão ligados.
Fora da França, na Bélgica, a cidade de Gante, governada majoritariamente por políticos de centro-esquerda, recomendou que moradores evitassem o uso de ar-condicionado e chegou a dizer em seu site que “o melhor ar-condicionado é uma árvore”, segundo o New York Times. Após críticas, a prefeitura retirou a orientação para evitar os aparelhos e substituiu a mensagem por uma recomendação para “resfriar de forma inteligente”.
No Reino Unido, críticos do atual governo trabalhista, ainda sob comando de Keir Starmer (que anunciou neste mês que vai deixar o cargo), afirmam que políticas climáticas e regras de construção desestimularam a instalação de ar-condicionado em casas, escolas e hospitais, mesmo com o aumento das temperaturas. Em Londres, porém, o prefeito progressista Sadiq Khan, do Partido Trabalhista, reconheceu que a capital precisará instalar sistemas de refrigeração em escolas, escritórios e hospitais para enfrentar ondas de calor mais severas que o país enfrenta neste momento.
O debate ocorre em meio a uma onda de calor que tem atingido vários países da Europa ao mesmo tempo neste mês. França, Reino Unido, Itália, Alemanha, Bélgica e outras nações vêm enfrentando temperaturas próximas ou acima de 40°C, com escolas fechadas, hospitais pressionados, transportes afetados e alertas de saúde para idosos, crianças e pessoas com doenças pré-existentes.