
O Banco Central da Holanda (DNB, na sigla em holandês) anunciou nesta quarta-feira (2) que transferiu grande parte das suas reservas de ouro mantidas nos Estados Unidos e no Canadá para o Reino Unido, alegando a necessidade de “reforçar sua preparação para crises” diante da “crescente instabilidade geopolítica”.
Segundo informações do jornal britânico Financial Times, a transferência ocorreu após apelos de políticos europeus e lobistas pela repatriação das reservas de ouro mantidas nos EUA, sob o alerta de que um governo americano “pouco confiável”, sob a presidência de Donald Trump, poderia confiscar esses ativos em meio às crescentes tensões entre Washington e a União Europeia (UE).
Em comunicado, o DNB afirmou que “o aumento da liquidez e da negociabilidade das reservas de ouro holandesas” faz parte dos preparativos diante da instabilidade mencionada – embora o governo Trump não seja mencionado na nota – e que “uma distribuição mais equilibrada dessas reservas entre a América do Norte, o Reino Unido e a Holanda ajuda a diluir riscos e as tornará mais prontamente disponíveis para uso em situações de crise”.
De acordo com o comunicado, entre março e agosto cerca de 86 toneladas de ouro mantidas nos Estados Unidos e no Canadá foram transferidas para Londres, “cidade reconhecida mundialmente como um importante centro de negociação de ouro físico”.
“O ouro mantido no Banco da Inglaterra atende aos modernos padrões de comércio internacional, é considerado o ouro de mais fácil negociação no mundo e, portanto, será o mais prontamente disponível para o DNB em uma situação de crise. As reservas de ouro mantidas em Nova York e Ottawa não podem ser utilizadas com a mesma rapidez e agilidade em tais circunstâncias”, informou o banco central holandês.
Após essa transferência, os Estados Unidos e o Canadá, que antes mantinham somados pouco mais da metade do ouro holandês, agora detêm 18,5% cada.
De acordo com o DNB, a maior parte da realocação (cerca de 59 toneladas) foi realizada com vendas em Nova York e, em seguida, compras de ouro em Londres que atendesse aos padrões do mercado internacional.
Outras 27 toneladas de ouro foram transferidas fisicamente dos Estados Unidos e do Canadá para a cidade holandesa de Zeist, onde fica um complexo do DNB, e uma quantidade semelhante de ouro que atendia aos padrões do mercado internacional foi transferida de Zeist para Londres, evitando a necessidade de refundir as barras de ouro.
A transação é divulgada em um momento de tensões entre Washington e Amsterdã. Desde julho, a Holanda é alvo de uma tarifa americana de 10% sobre seus produtos, assim como os outros países da UE, sob o argumento de que não faz o suficiente para coibir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
As sanções dos Estados Unidos contra juízes e promotores do Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado na Holanda, foram outra fonte de atrito, gerando críticas do governo holandês.
Em janeiro, a Holanda foi incluída numa lista de oito países europeus que seriam alvos de novas tarifas americanas por se oporem ao plano de Trump de anexar a Groenlândia. Porém, o presidente dos Estados Unidos depois desistiu de aplicar essa sobretaxa.