A região de fronteira entre o Nepal e o Tibete sofreu,nesta quarta-feira (26/8), com severos fluxos e avalanches de lama, gerando destruição e estado de alerta nas áreas a jusante. Diferente dos deslizamentos de terra convencionais, o desastre na região do Himalaia apresentou um comportamento altamente líquido e veloz.
Segundo análises em Geociências, a magnitude do evento está diretamente ligada à instabilidade tectônica e estrutural natural da região montanhosa. De acordo com o engenheiro geólogo Marcos Domingues Muro, coordenador da Câmara Especializada de Geologia e Minas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), os tremores de terra atuam como os principais gatilhos para as catástrofes locais.
“Qualquer tipo de sismo nessas áreas elevadas pode causar avalanches. Não se descarta a possibilidade de um tremor, visto que o local possui intensa sismicidade. O terremoto de magnitude 4,4 na escala Richter, que atingiu a região, pode ser um dos motivos desse deslizamento”, explica o engenheiro geólogo.
O perigo iminente na região, no entanto, não é novidade para a comunidade científica. O especialista do Crea-SP recorda que o local já estava no radar de geocientistas. “Em 2025, por meio de estudos, pesquisadores alertaram sobre os efeitos desses terremotos e eventos climáticos na área e sobre a possibilidade de novos episódios, dada a vulnerabilidade e a suscetibilidade da região”, pontua.
O desastre ganha proporções ainda maiores devido ao colapso de represamentos naturais. “Aconteceu após novos rompimentos de lagos glaciais. Nesses lagos têm a presença de um grande acúmulo de argila. Como, de fato, pôde ser percebido pelas imagens, há a presença intensa de água e lama. Essa composição, quando liberada abruptamente, forma massas de detritos altamente fluidas que descem os vales em altíssimas velocidades”, detalha Muro.
Devido à barreira morfológica das altas montanhas e ao difícil acesso, instalar e manter equipamentos de monitoramento nessas áreas remotas é um desafio constante, que pode dificultar muitas vezes o envio de alertas precoces. Mesmo diante desse obstáculo geográfico, a Engenharia e a gestão pública possuem ferramentas fundamentais de mitigação.
“Em termos de obras preventivas, existem algumas barragens que são feitas exatamente para conter esse tipo de evento, de avalanches de lama e detritos”, afirma.
Apesar da importância das barreiras físicas de contenção, a preservação de vidas e a gestão do risco dependem majoritariamente de ações estratégicas focadas no preparo da sociedade. “Por isso é sempre importante ter uma política pública relacionada a áreas de desastres naturais. O que realmente é mais eficaz é justamente fazer um monitoramento e um plano de desastres, implementando sirenes e meios de comunicação, onde, a partir de um evento, se possa evacuar rapidamente as pessoas nas regiões mais baixas”, conclui o coordenador.
Sobre o Crea-SP. Criada há 92 anos, a autarquia federal é responsável pela fiscalização, controle, orientação e aprimoramento do exercício e das atividades dos profissionais das Engenharias, Agronomia e Geociências. O Crea-SP está presente nos 645 municípios do Estado, conta com cerca de 380 mil profissionais registrados e mais de 110 mil empresas registradas.
Inundação repentina. Uma parede de lama e rochas desabou em um rio na fronteira himalaia entre o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira (26), provocando inundações catastróficas no lado nepalês que
mataram pelo menos 95 pessoas, segundo a polícia, e deixaram centenas de turistas
desaparecidos.
Em um desastre que ainda estava em andamento, vídeos comprovados mostraram dezenas de
pessoas sendo arrastadas, com as autoridades de ambos os lados temendo um numero muito
maior de vítimas e destruição em grande escala.
Casas, estradas e projetos de energia foram arrastados no Nepal, enquanto autoridades no
Tibete afirmaram temer “um grande numero de vitimas”, com algumas pessoas
desaparecidas no condado de Gyirong após um deslizamento de terra atingir um posto de
onteira terrestre.
Pelo menos 384 turistas, incluindo 105 indianos, 93 nepaleses, tres cidadaos norte-americanos e
12 britânicos, estavam desaparecidos na região, informou a autoridade de turismo do Nepal.
A agência de notícias sul-coreana Yonhap informou, separadamente, que cerca de oito de seus cidadãos também estavam desaparecidos no Nepal.