Chinon, no Vale do Loire, é um diamante – 04/09/2026 – Turismo

O Vale do Loire faz parte do patrimônio mundial da Unesco. Pelo clima e pela qualidade das terras, é chamado Jardim de França. O vinhedo ocupa 2.000 hectares e o vinho foi celebrado pelo mais popular dos autores renascentistas franceses, François Rabelais. Gargântua –personagem central da sua grande sátira– já nasceu dizendo beber, beber, beber.

Das cidades do Vale do Loire, a mais impressionante é Chinon por mais de um motivo. Uma fortaleza espetacular que domina o rio Viena com três castelos construídos do século 10 até o século 13. Entre a fortaleza e o rio, a cidade é repleta de torres, masmorras e tetos pontiagudos.

Por serem estreitas, as ruas são acolhedoras. Nelas, a arquitetura medieval e a renascentista se alternam harmoniosamente. As praças são muitas e, na maior delas, figura uma estátua equestre de Joana d’Arc que mais parece galopar.

Tanto pelo seu aspecto quanto pela sua alma, Chinon merece ser comparada a um diadema. Da alma, só é possível saber através da história de Joana d’Arc e de Rabelais, continuamente rememorados no espaço da cidade.

Foi na Fortaleza de Chinon, durante a Guerra de Cem Anos, que o rei Carlos 7º se refugiou, e foi lá que, em 1429, Joana d’Arc o convenceu a deixar que ela liberasse a cidade de Orleans, invadida pelos ingleses.

Além de ser uma figura central da fortaleza, Joana d’Arc é um ícone que atravessou os séculos e os regimes políticos (monárquicos e republicanos), graças à sua coragem, à combatividade e à tenacidade.

No Castelo do Meio da Fortaleza, fica a Sala do Reconhecimento, onde se deu o primeiro encontro de Joana d’Arc com Carlos 7º. A Donzela de Orleans foi então examinada por um grupo de mulheres que se certificaram da sua virgindade e por religiosos que confirmaram a natureza divina da sua missão. Antes de confiar a ela um exército, o rei quis ter certeza de que ela não estava sob a influência do diabo.

Depois da vitória de Orleans, Joana convenceu Carlos 7º de que ele devia ser coroado em Reims para não pairar mais dúvida sobre a sua legitimidade.

O rei foi coroado, porém, Joana, como é sabido, foi vendida aos ingleses, julgada herética pela Inquisição e queimada viva. Graças ao papa, no entanto, ela foi reabilitada ainda no século 15 e passou a encarnar o patriotismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a sua imagem foi usada para encorajar os soldados.

Como Joana d’Arc, Rabelais foi acusado de heresia pelos teólogos da Sorbonne, de quem ele fez pouco, tratando-os de sorbonícolas. Se ele não tivesse sido herético, a sua grande obra não existiria. Segundo Milan Kundera, o romance nasceu quando Rabelais ouviu o riso de Deus. A dez minutos de Chinon fica a sua casa, La Devinière.

Rabelais fez deste lugar onde passou a infância o castelo dos seus gigantes e das “guerras picrocolinas”. Na Devinière, fica o Museu Rabelais, que abriga edições raras, retraça a vida e a obra do escritor, focalizando os seus personagens, particularmente Gargântua e Pantagruel. São personagens que não brotaram só da imaginação do escritor. Seus ascendentes e descendentes saíram da imaginação popular, formatada por lendas e mitos da antiguidade.

Filho de Grandgousier e de Gargamelle, Gargântua nasceu da orelha de Gargamelle durante um banquete em que, de tanto comer, ela deu à luz. Gargântua só podia ter um filho chamado Pantagruel, que significa sedento. Os dois personagens convidam para o banquete do mundo e para o riso que “é próprio do homem”. A ponto de Rabelais, que também foi médico, se valer do riso para curar.

Além de ser um hedonista, foi um grande humanista e um escritor que reinventou a língua francesa na qual ele introduziu um sem-número de palavras. Dizia que a língua vulgar nada tinha de inepto e nem de indigno como queriam os sorbonícolas.

Betty Milan é escritora e psicanalista, membro da Academia Paulista de Letras.

Fonte: Folha de São Paulo

Últimas notícias

... O conteúdo do CN12 está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente do CN12 vivo e acessível a todos. A republicação é gratuita desde que citada a fonte.