Medicamentos da classe GLP-1, grupo que inclui o Ozempic e o Wegovy, ganharam fama nos últimos anos por sua eficácia no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Agora, uma nova pesquisa apresentada durante a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) trouxe um possível benefício adicional: uma associação entre o uso desses medicamentos e a redução do risco de câncer de mama.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, analisou dados de 111.646 mulheres entre 45 e 80 anos com sobrepeso ou obesidade.
Os resultados mostraram que aquelas que utilizavam medicamentos da classe GLP-1 apresentaram entre 30% e 35% menos chances de desenvolver câncer de mama quando comparadas às que não faziam uso dessas medicações.
Apesar da repercussão, especialistas ressaltam que os resultados devem ser interpretados com cautela, já que a pesquisa é observacional e não demonstra uma relação direta de causa e efeito.
Segundo a oncologista clínica Aline Cristini Vieira, do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), os estudos recentes têm despertado atenção da comunidade médica não apenas pela possível redução da incidência da doença, mas também pelos impactos observados entre pacientes que já convivem com o câncer de mama.
“Estudos apresentados no maior congresso de oncologia do mundo observaram que mulheres com câncer de mama que tomavam remédios da família do Ozempic viveram mais do que as que não tomavam”, explica a especialista.
O Ozempic reduz o risco de câncer de mama? Especialistas pedem cautela
Embora os resultados tenham chamado a atenção, os próprios pesquisadores destacam que ainda não é possível afirmar que os medicamentos sejam responsáveis pela redução observada.
A pesquisa comparou mulheres com características semelhantes, levando em consideração fatores como idade, índice de massa corporal, raça, etnia e presença de diabetes. Mesmo após esses ajustes, a associação permaneceu consistente.
Para Aline, é importante compreender que uma redução de risco estatístico não equivale à comprovação de proteção contra o câncer. “Existe uma ligação estatística entre o remédio e a sobrevida maior, mas não está provado que foi o medicamento que causou esse benefício”, afirma.

Segundo ela, outros fatores podem ter influenciado os resultados, como maior acompanhamento médico, melhor adesão aos tratamentos e condições gerais de saúde mais favoráveis entre as pacientes que receberam essas prescrições.
Por que os resultados ainda não comprovam um efeito protetor?
Os autores do estudo também reconhecem limitações importantes. A análise não diferenciou os diversos medicamentos da classe GLP-1, não avaliou o tempo de uso das drogas e tampouco considerou fatores como predisposição genética, estágio dos tumores ou características específicas das pacientes.
Por isso, novos ensaios clínicos já estão sendo planejados para investigar se esses medicamentos realmente podem atuar na prevenção do câncer de mama em mulheres consideradas de alto risco.
Como Ozempic e outros medicamentos GLP-1 podem influenciar o câncer de mama
Uma das hipóteses mais fortes para explicar os resultados está relacionada ao próprio emagrecimento promovido pelos medicamentos.
A obesidade é considerada um dos principais fatores de risco para câncer de mama, especialmente após a menopausa. Isso ocorre porque o tecido adiposo produz estrogênio, hormônio que pode estimular determinados tipos de tumores mamários. Além disso, o excesso de peso está associado a um estado permanente de inflamação no organismo.
“Como esse tipo de remédio faz a pessoa perder peso, reduzir a gordura corporal já ajudaria a baixar a inflamação e os níveis de estrogênio, fatores ligados ao câncer de mama”, explica a oncologista.
O efeito pode ir além da perda de peso?
Entretanto, os pesquisadores acreditam que o emagrecimento talvez não seja a única explicação. Os medicamentos da classe GLP-1 imitam um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições, responsável por regular a saciedade e o metabolismo da glicose.
Estudos laboratoriais sugerem que esse hormônio também pode interagir com receptores presentes em células tumorais e influenciar processos relacionados à inflamação, ao metabolismo celular e à expressão genética.
Esses mecanismos ainda estão sendo investigados, mas ajudam a explicar por que a comunidade científica passou a olhar para os medicamentos além de seus efeitos metabólicos.
Apesar das descobertas promissoras, a recomendação atual permanece a mesma: o Ozempic e medicamentos semelhantes não devem ser utilizados com a finalidade de prevenir ou tratar câncer fora das indicações já aprovadas.
“Começar a usar o remédio com o objetivo específico de prevenir ou tratar câncer ainda não tem respaldo científico suficiente. Qualquer decisão deve ser tomada junto ao médico responsável, considerando o histórico completo da paciente”, conclui Aline.
Enquanto os estudos avançam, os especialistas reforçam que as estratégias comprovadamente eficazes para reduzir o risco de câncer de mama continuam sendo o controle do peso corporal, a prática regular de atividade física, a alimentação equilibrada e a realização dos exames preventivos recomendados para cada faixa etária.