Até hoje, os motores elétricos de fluxo axial eram considerados uma solução destinada apenas aos supercarros elétricos, uma tecnologia confinada ao universo dos veículos de alto desempenho e emissão zero. Isso acontece devido às vantagens inerentes desse tipo de motor, capaz de oferecer altos níveis de potência e torque em unidades mais compactas e leves.
Não é por acaso que essa tecnologia tenha sido adotada por marcas como Mercedes-Benz, em alguns modelos da divisão AMG, além de fabricantes como Ferrari e Lamborghini. No entanto, esse cenário está mudando rapidamente, e o projeto MAXIMA, da União Europeia (sigla para Modular Axial Flux Motor for Automotive) surge como prova dessa transformação.
Mercedes Vision One-Eleven, o motor elétrico axial da Yasa
Um motor melhor e também mais caro
Ao contrário dos motores elétricos tradicionais, nos quais o fluxo magnético se desenvolve radialmente em relação ao eixo de rotação (motores de fluxo radial), os motores de fluxo axial operam com o fluxo magnético paralelo ao eixo. Na prática, isso significa que, em vez de terem uma estrutura cilíndrica mais profunda, esses motores possuem um formato semelhante ao de um disco, o que permite uma construção mais compacta e eficiente.
Essa característica possibilita criar motores mais finos, compactos e leves, mesmo mantendo o mesmo nível de potência. Além disso, nos motores de fluxo axial, a maior superfície de contato magnético melhora a densidade de torque e a eficiência energética. Não por acaso, essa solução foi adotada principalmente em carros de alta performance, nos quais cada quilograma economizado faz diferença e onde é essencial entregar grande torque de forma imediata.
Uma das principais limitações dessa tecnologia, porém, sempre foi o custo de produção, e esse é o principal motivo pelo qual seu uso ainda é restrito. Os motores de fluxo axial exigem processos de montagem mais complexos, tolerâncias extremamente precisas e materiais de alto custo. Todos esses fatores acabaram retardando sua adoção em veículos produzidos em larga escala.
A Europa reúne forças
O projeto Maxima foi iniciado pela União Europeia em 2023, dentro das iniciativas do programa Horizonte Europa, com financiamento previsto até janeiro de 2027. A coordenação das atividades está nas mãos da Arts et Métiers (instituto de tecnologia e engenharia da França) que administra um consórcio internacional formado por universidades, centros de pesquisa e empresas da cadeia automotiva.

Em um motor de fluxo axial, a disposição de estator e rotor permite reduzir o volume
Entre os participantes estão também a Nidec, a PSA Emotors e a Universidade Técnica de Cluj-Napoca, além de diversos parceiros industriais e acadêmicos europeus envolvidos em áreas como design, simulação digital, produção e recuperação de terras raras utilizadas em ímãs permanentes. O objetivo do projeto não é criar um motor de altíssimo desempenho, mas desenvolver uma arquitetura de fluxo axial mais simples de industrializar e mais barata de produzir em larga escala.
Existe uma razão clara para essa escolha: os carros elétricos precisam se tornar mais eficientes e leves, especialmente nos segmentos de entrada. Atualmente, muitos veículos elétricos compactos utilizam baterias grandes e pesadas para garantir alta autonomia, mas isso aumenta os custos, o peso e o consumo energético.
Um motor de fluxo axial mais eficiente poderia oferecer os mesmos resultados utilizando baterias menores, reduzindo o peso total do veículo, o tempo de recarga e o preço final do automóvel. Se o projeto alcançar os resultados esperados, os motores de fluxo axial poderão deixar de ser uma solução limitada a supercarros e passar a integrar também veículos elétricos populares.

Mercedes Vision One-Eleven
Palavra de ordem é simplificar
Os resultados obtidos até agora são considerados promissores, principalmente porque os pesquisadores conseguiram desenvolver processos produtivos mais simples e baratos do que os atualmente utilizados em motores de fluxo axial destinados a superesportivos elétricos.
A meta é reduzir os custos industriais sem abrir mão das principais vantagens dessa tecnologia, como ser compacto, leve e eficiente. Caso esses avanços sejam confirmados na produção em larga escala, os motores de fluxo axial poderão deixar de ser uma tecnologia de nicho e se tornar um componente fundamental dos futuros carros elétricos produzidos em massa.