A Honda divulgou nessa semana o que pode vir a ser um dos maiores golpes financeiros da história recente da empresa. A montadora teria registrado um prejuízo operacional de cerca de US$ 2,59 bilhões no ano fiscal encerrado em março de 2026, em grande parte porque seus planos para veículos elétricos se transformaram em uma dura lição de realidade que custou caro.
E agora? As motocicletas da empresa estão ajudando a salvar o dia. Mais uma vez. A Honda cancelou recentemente três lançamentos de veículos elétricos, enquanto enfrenta enormes custos de reestruturação ligados ao desenvolvimento de veículos elétricos, indenizações a fornecedores, investimentos em fábricas e programas de produção interrompidos. A empresa aparentemente espera que as perdas relacionadas aos veículos elétricos continuem se estendendo até o ano fiscal de 2027 também.
Mas enquanto o setor de automóveis está ocupado queimando dinheiro na tentativa de sobreviver à transição para os veículos elétricos, a divisão de motocicletas da Honda está, literalmente, carregando toda a empresa nas costas. Conforme relatado pelo Nikkei Asia, a Honda espera que as motocicletas ajudem a levar a empresa de volta à lucratividade operacional no próximo ano fiscal. Não são carros esportivos. Não são crossovers elétricos. Não é tecnologia autônoma. São motocicletas.
Scooters, motos para o trajeto diário, motos com quadro aberto, motos de baixa cilindrada e meios de transporte práticos de duas rodas são agora algumas das peças mais importantes que mantêm uma das maiores empresas de mobilidade do mundo financeiramente estável. São modelos como as nossas CG, Biz, Pop e Bros no mundo inteiro que estão ajudando a fechar as contas.
E quando se olha para o panorama geral, isso faz todo o sentido. Em mercados como Índia, Indonésia, Vietnã, Tailândia e Filipinas, as motocicletas não são máquinas de nicho para entusiastas. Elas são o transporte diário, como no Brasil. Milhões de pessoas dependem delas para ir ao trabalho, transportar mercadorias, circular no trânsito e sobreviver aos preços exorbitantes dos combustíveis e às cidades superlotadas.
A empresa vende motocicletas em uma escala que a maioria do público ocidental provavelmente nem consegue imaginar. Estamos falando de cidades inteiras movidas a scooters de 110 cm3 e 125 cm3 com o emblema da Honda. Enquanto a indústria automotiva discute sobre infraestrutura de recarga e cadeias de suprimentos de baterias, a divisão de motocicletas da Honda continua produzindo meios de transporte a gasolina acessíveis que as pessoas realmente compram em números grandes.

Foto: Honda
E, ao contrário dos carros elétricos, as motocicletas são comparativamente baratas de desenvolver.
Uma moto para o trajeto diário não precisa de baterias gigantescas, ecossistemas de software caros, hardware avançado de assistência ao motorista ou investimentos de bilhões de dólares em plataformas. Uma motocicleta de baixa cilindrada pode permanecer lucrativa apenas pelo volume de vendas. A Honda passou décadas aperfeiçoando essa fórmula. É por isso que essa história importa além de apenas um ano financeiro ruim. Está ficando cada vez mais óbvio que as motocicletas não são mais um negócio secundário dentro da Honda. De certa forma, elas estão se tornando a rede de segurança.
Há também uma estranha ironia aqui. A Honda passou anos se posicionando como uma empresa de mobilidade focada no futuro, com planos agressivos de eletrificação. Enquanto isso, uma das fontes de lucro mais confiáveis da empresa ainda vem de milhões de motocicletas simples a combustão interna que circulam pelas cidades asiáticas todos os dias.
E antes que alguém diga que isso se aplica apenas a scooters baratas, lembre-se de que o negócio de motocicletas da Honda abrange basicamente todas as categorias imagináveis. Motocicletas básicas para o trajeto diário, motos de aventura, superbikes, motos de turismo, quadriciclos, ATVs, minimotos, scooters e veículos de frotas comerciais — todos contribuem para o império global de duas rodas da empresa.

Foto: Honda
A demanda por motocicletas continua forte em muitos mercados emergentes porque essas máquinas resolvem problemas reais de transporte a um custo relativamente baixo. Enquanto isso, a adoção de veículos elétricos em várias regiões desacelerou em comparação com as projeções agressivas feitas pelas montadoras há alguns anos. Empresas como Ford, GM e até mesmo a Tesla enfrentaram níveis variados de pressão ligados à desaceleração do impulso dos EVs, guerras de preços ou preocupações com a lucratividade. A situação da Honda acaba tendo uma reviravolta particularmente fascinante porque o plano de resgate não é outro carro. São as motocicletas.
E se essa tendência continuar, não se surpreenda se a Honda apostar ainda mais forte nas motos globalmente. Porque, neste momento, as máquinas que estão ajudando a estabilizar financeiramente a empresa não são protótipos futuristas de veículos elétricos. São as mesmas motocicletas práticas que a Honda vem fabricando há literalmente décadas.