Os pés na areia, um pôr do sol alaranjado e aquela sensação de que o tempo passa mais devagar. Nos últimos anos, um número crescente de casais brasileiros passou a transformar esse cenário de férias também em altar.
Em lugares como São Miguel dos Milagres, em Alagoas, casamentos se tornaram um importante motor do turismo local, transformando um antigo vilarejo de pescadores em um dos principais destinos brasileiros para a realização das cerimônias. Estimativas de empreendedores locais dão conta de que a região recebe entre 60 e 70 cerimônias por ano atualmente.
Em muitos casos, os convidados chegam dois ou três dias antes e prolongam a estadia depois da festa. Hotéis menores operam lotados durante os eventos; restaurantes recebem grupos fechados; fornecedores de decoração, fotografia, música e gastronomia circulam com frequência cada vez maior pela chamada Rota Ecológica dos Milagres.
“Os convidados fazem passeios e ficam o fim de semana inteiro circulando”, diz Mamá Omena, da Mamá Eventos, empresa especializada em cerimoniais com atuação na região. Segundo a organizadora, muitos visitantes acabam conhecendo São Miguel dos Milagres por causa dos eventos e então resolvem se casar por lá.
Foi o caso da arquiteta Maria Vitória Romeiro, 27, e do empresário Lucas Romeiro, 30, de Niterói. Eles se casaram em Milagres após uma viagem de Réveillon feita logo depois da pandemia. Segundo ela, a decisão fez sentido para familiares e amigos, que embarcaram na ideia de celebrar longe de casa. A experiência foi tão marcante que o casal já cogita voltar para comemorar as bodas no município.
“A cidade passou a fazer parte da nossa história. Voltaríamos sem pensar duas vezes”, diz. Os casamentos em Milagres ganharam força sobretudo após a pandemia, que deu mais sentido à realização de cerimônias enxutas. Em vez de grandes centros urbanos ou de salões fechados, muitos casais passaram a buscar praias menos movimentadas, hospedagens menores e experiências um pouco mais íntimas. Parte do apelo de Milagres está justamente na ausência de grandes avenidas à beira-mar, hotéis gigantescos ou de vida noturna intensa.
Para Mariana Cerone, professora de consumo de luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing, isso ajuda a explicar por que lugares relativamente isolados ganharam tanta força entre consumidores de alta renda. Segundo ela, experiências passaram a funcionar como marcadores sociais. Em vez da ostentação explícita, ganha valor a sensação de exclusividade de praias vazias, poucos quartos, silêncio, privacidade e atendimento altamente personalizado.
“Ao se casar, você está dizendo quem você é, quais lugares frequenta e que tipo de vivência consegue proporcionar”, diz.
A estética desses eventos acompanha essa mudança. Sai de cena parte da exuberância visual que durante anos dominou o mercado de festas de luxo e entram elementos ligados à ideia de naturalidade, simplicidade e integração com a paisagem. “Mas é uma simplicidade do jeito que o rico gosta”, afirma Cerone. “É um simples altamente produzido.”
Além de movimentar uma extensa cadeia de serviços locais, o turismo de casamentos impulsionou o mercado imobiliário, que tenta fisgar parte desse público que vai a uma cerimônia, se encanta pelo local e quer mais. Mais recentemente, pousadas menores, hotéis de charme e empreendimentos voltados a segundas residências se multiplicaram pela região.
“Quem decide casar em Milagres pode casar em qualquer lugar do mundo”, diz Maurício Vasconcelos, sócio da incorporadora Taipa Inc., que está construindo o Bossa Eco Luxury Villas, pensado para o público interessado em permanecer períodos mais longos, em vez de apenas viagens de final de semana. A frase resume como o destino passou a disputar o público acostumado a viagens internacionais e a experiências personalizadas. Que o diga a presença frequente de celebridades, como Bruna Marquezine e Sasha Meneghel.
O fenômeno não se restringe ao litoral norte alagoano. Em Barra de São Miguel, no litoral sul do estado, o Kenoa Exclusive Beach Spa & Resort tem apenas 23 acomodações à beira-mar, o que acabou aproximando o hotel do mercado de casamentos mais intimistas, focado em celebrações de pequeno porte. Segundo Emanuel Pereira, coordenador comercial do Kenoa, ultimamente os casamentos passaram a ocupar espaço importante dentro do hotel.
“É um público que não quer apenas o luxo pelo luxo”, afirma. “Existe uma busca forte por autenticidade, exclusividade e conexão com o lugar.”
A uma hora e meia de Fortaleza, no Ceará, o Saline Boutique Hotel ainda atende a todos os públicos, mas também se especializou em receber pequenos casamentos. São pelo menos 12 cerimônias por ano, cerca de uma por mês, o que faz das celebrações um importante filão para o hotel —quem quiser o buyout, isto é, fechar o local para os seus convidados, deve fazê-lo com pelo menos oito meses de antecedência.
Já na Bahia, outro lugar que guarda uma igrejinha histórica com vista para o mar é o Cerimonial Loreto, na ilha dos Frades, a minutos de barco de Salvador. Apenas o aluguel do espaço varia de R$ 40 mil a R$ 95 mil, mas dependendo do número de convidados e dos serviços contratados (é possível incluir hospedagem em um casarão colonial anexo à capela, por exemplo), o orçamento final da festa pode chegar à casa dos milhões. Ainda assim, a fila de espera para se casar ali passa de um ano.
Embora a imagem vendida por destinos desse tipo esteja associada à simplicidade e ao contato com a natureza, o funcionamento desse mercado exige uma operação complexa. Casamentos em praias afastadas dependem de transporte de equipamentos, montagem de estruturas, logística de fornecedores e equipes numerosas trabalhando durante dias.
O crescimento acelerado também começa a levantar discussões sobre infraestrutura e preservação ambiental. Inserida na APA Costa dos Corais, a região de Milagres convive hoje com expansão imobiliária, aumento da circulação de veículos e pressão crescente sobre serviços urbanos.
Para Renato Lôbo, professor do Ifal (Instituto Federal de Alagoas), o avanço do turismo de alto padrão em regiões como Milagres provoca mudanças profundas na ocupação do litoral. Segundo o pesquisador, o fenômeno impulsiona disputas imobiliárias e pressiona territórios antes pouco explorados economicamente.
“O turismo chega trazendo uma promessa de desenvolvimento, mas também reorganiza o território e cria novas disputas pelo uso do espaço”, diz. Além disso, o principal risco, ele afirma, é que o litoral norte alagoano repita problemas já observados em outros destinos brasileiros marcados pela expansão acelerada do turismo.
Segundo Lôbo, o setor pode gerar renda e dinamizar economias locais, mas precisa crescer acompanhado de infraestrutura, políticas públicas e ordenamento territorial.
“Quando você começa a pressionar demais a infraestrutura, aumentar muito a circulação e acelerar ocupações sem planejamento, isso pode descaracterizar aquela localidade”, diz. “Se não houver planejamento, o destino corre o risco de perder justamente aquilo que hoje faz as pessoas quererem ir para lá.”