Prompts de IA melhoram roteiros de viagem; veja como – 07/10/2026 – Turismo

Se a inteligência artificial consegue encontrar rapidamente agulhas em palheiros jurídicos, decifrar problemas matemáticos há muito sem solução e criar imagens retrô dos anos 1980 convincentes o bastante para serem capas de álbuns do Bon Jovi, por que ela é tão ruim em planejar uma semana em Roma?

A culpa é dos prompts. Os chatbots talvez ainda estejam longe de substituir as técnicas tradicionais de planejamento de viagens, mas podem gerar resultados muito melhores do que a maioria de nós imagina.

O problema: não estamos ajudando o suficiente. “Eles não são oráculos”, disse Ethan Mollick, professor que estuda IA e seu impacto na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia. “Pense nisso como trabalhar com uma pessoa inteligente.”

Usando conselhos de Mollick, de outros especialistas e de amigos antenados em tecnologia, além de dicas de empresas de IA, decidi testar algumas teorias sobre como escrever prompts melhores para planejar viagens.

Criei duas viagens fictícias de cinco dias, adaptadas às duas cidades que conheço melhor: São Paulo e Nova York. Planejei acionar três bots —ChatGPT, Gemini e Claude—, testando tanto as versões gratuitas quanto as pagas. (As versões pagas tendiam a ir mais fundo e trabalhar mais rápido, e eram menos propensas a perder o fôlego.)

Um detalhe: trabalhei disfarçado, usando contas novas ou “conversas temporárias” para que os bots não soubessem que eu havia morado nas duas cidades por anos. Pedi à IA que orientasse um viajante de primeira viagem a São Paulo e um visitante veterano de Nova York que já tivesse visto todas as principais atrações.

Fiquei impressionado com os resultados, embora não convencido a abandonar minhas preferências à moda antiga por dicas de amigos, guias de papel e madrugadas de pesquisa on-line.

Aqui estão algumas estratégias que funcionaram para mim.

Capriche nos detalhes

Considere este erro típico de iniciante: pedir a um bot para “planejar um fim de semana de três dias em Chicago para alguém que gosta de museus e boa comida”.

Especialistas me disseram repetidas vezes: “Faça perguntas genéricas e você receberá respostas genéricas.”

Os resultados acabam ficando sem graça —quem não gosta de boa comida?— e também vulneráveis à “otimização para mecanismos generativos”, uma prática em rápido crescimento na qual empresas correm para manipular os modelos a fim de aparecer nas respostas. (É o equivalente, na IA, à otimização para mecanismos de busca, que empresas usam há anos para chegar ao topo das pesquisas no Google.)

Para obter resultados mais personalizados, encha o bot de detalhes pessoais. Isso inclui seus gostos específicos de viagem, seus objetivos para esta viagem e qualquer conselho que você já tenha coletado de amigos ou de outras fontes.

Tente compilar um perfil pessoal de viagem, com alguns parágrafos sobre suas preferências e sua filosofia, talvez em um Google Doc, que você possa fornecer aos bots.

Além do seu perfil de viagem, você deve fornecer ao bot qualquer outra pesquisa que tenha feito usando suas fontes favoritas de informação turística ou dicas que tenha recebido de amigos. O assistente incorporará essas sugestões ao seu roteiro, ou talvez lhe diga por que elas não se encaixam. No meu teste sobre São Paulo, por exemplo, enviei conselhos de um “amigo de confiança que mora em São Paulo”. (Na verdade, era um documento que compartilhei com convidados de fora que vieram ao meu casamento no ano passado.)

Peça ajuda ao bot

A IA pode, de fato, ajudá-lo a tornar seus prompts mais eficazes. Em cada etapa do caminho, pergunte ao bot se há algo que você possa fazer para deixar seu pedido mais claro.

Por exemplo, quando enviei meu perfil de viagem, pedi a cada bot que me fizesse cinco perguntas de acompanhamento. Para a viagem a Nova York, o Gemini perguntou sobre minha disposição de passar várias horas me deslocando até uma parte mais distante, mas interessante, da cidade. Respondi que parecia bom, mas só por um dia. Ele sugeriu uma visita ao Pelham Bay Park e a City Island, no Bronx —um bom conselho se eu sou o público-alvo.

Para São Paulo, em vez de uma agenda dia a dia, pedi quatro listas separadas —atividades, restaurantes, vida noturna e hospedagem— com opções “em excesso” para cada uma. Presumi que poderia reduzir cada lista fazendo novas perguntas aos bots. Funcionou muito bem e, ao final, pedi que agrupassem os resultados em conjuntos geograficamente coerentes.

Saiba o que está faltando

Ao contrário de você e de mim, a IA não tem livre acesso à internet. Muitos sites (incluindo o The New York Times, que processou a OpenAI, criadora do ChatGPT, e outros por violação de direitos autorais) bloqueiam o acesso dos bots a parte ou a todo o seu conteúdo.

Outros têm acordos com empresas específicas de IA. Por exemplo, o ChatGPT e o Gemini, que pertence ao Google, têm acesso total ao Reddit —uma ótima fonte de dicas de viagem—, enquanto o Claude, criado pela Anthropic, não tem. E os bots não necessariamente conseguem ver todas as avaliações do Tripadvisor, nem o conteúdo completo de muitas publicações sobre viagem e gastronomia.

Assim, embora os bots trabalhem de forma rápida e eficaz, seus recursos são limitados. Usar um deles pode ser um pouco como contratar um chef de cozinha brilhante que só pode fazer compras em uma 7-Eleven.

Como saber se um bot consegue pesquisar suas fontes de informação mais confiáveis? Cite um site de que você gosta e pergunte ao bot se ele tem acesso. Por exemplo, sou fã do site gastronômico Eater, e Claude e Gemini me disseram que não podiam pesquisá-lo diretamente, enquanto o ChatGPT disse que podia —Eater tem uma parceria com o ChatGPT. Você também pode checar as fontes pedindo ao bot que cite as URLs que usou para chegar às dicas.

Sites que os chatbots de grandes empresas não conseguem pesquisar plenamente às vezes oferecem seus próprios bots de IA. Testei o assistente integrado do Tripadvisor pedindo conselhos sobre hotéis em São Paulo por menos de US$ 150 (aproximadamente R$ 765), e ele fez um trabalho razoável. O Reddit também tem um bot que permite garimpar seu poço aparentemente infinito de recomendações de viagem.

Cuidado com as alucinações

O Gemini alardeia seu acesso às informações do Google Maps e às avaliações de usuários, então fiquei surpreso quando ele recomendou um restaurante e um lugar para ouvir música ao vivo que já não estavam mais abertos, como qualquer usuário humano do Maps poderia ter percebido. “Você está 100% correto”, escreveu o bot depois que o confrontei sobre o erro, “e eu mereço completamente ficar no banco pelo restante desta sessão de planejamento”.

O Claude teve uma alucinação flagrante, recomendando duas padarias brasileiras tradicionais “que não ficaram gourmet”. Mas, quando verifiquei no Google Maps, os dois lugares acabaram sendo um estacionamento e um restaurante japonês. O ChatGPT não cometeu nenhum erro que eu tenha percebido, mas isso não significa que não houvesse algum. Você deve verificar de forma independente cada lugar que planeja visitar.

Crie uma conversa dedicada a viagens

A menos que você nunca mais vá viajar, salve seu trabalho. Achei o recurso Projetos, no ChatGPT e no Claude, uma forma útil de manter algo equivalente a uma conversa contínua sobre viagens de lazer, separada de qualquer outra coisa que você possa estar perguntando. Leva apenas um ou dois cliques para configurar, e o bot pode lhe explicar como.

Se você criar um projeto, poderá usá-lo durante a viagem para fazer ajustes ou uma mudança de última hora, e até fornecer feedback depois da viagem para que o bot lhe entregue resultados melhores da próxima vez.

Pense nos chatbots de IA como ferramentas muito inteligentes, mas falíveis, que funcionam melhor com instruções longas, detalhadas e com bastante contestação. Isso não significa abandonar seus recursos de viagem já testados pelo tempo, mas usá-los para alimentar o bot e mantê-lo honesto —ou, pelo menos, tão honesto quanto um assistente virtual pode ser.

Fonte: Folha de São Paulo

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