(FOLHAPRESS) – O Paraguai recebe a 68ª Cúpula do Mercosul nesta semana, em um contexto de consolidação da onda de direita na região e com a expectativa de novos anúncios em relação à implementação do acordo com a UE (União Europeia), em vigor desde maio.
O evento ocorrerá em Assunção nos dias 29 e 30 de maio -na segunda-feira, haverá uma reunião entre os ministros de Relações Exteriores do bloco; já na terça, os presidentes dos Estados parte e associados vão se encontrar e o Paraguai passará a Presidência ao Uruguai.
Estarão presentes Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia), José Antonio Kast (Chile), Daniel Noboa (Equador) e Santiago Peña (Paraguai), além do presidente Lula (PT), que deve chegar ao Paraguai na terça e voltar no mesmo dia para participar do lançamento do Plano Safra no Palácio do Planalto às 17h.
Trata-se de um quórum importante diante do fortalecimento de governos que costumam rejeitar outros órgãos regionais, como a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Este ano, o ultradireitista Abelardo de la Espriella venceu na Colômbia e Keiko Fujimori caminha para ganhar a Presidência do Peru, aumentando o bloco conservador na América Latina.
Com a agenda apertada de Lula, a Presidência ainda não confirmou se o petista terá reuniões bilaterais, mas há um interesse de Kast em se encontrar com o brasileiro.
O protagonista do encontro ainda deve ser o acordo entre Mercosul e UE. Embora já esteja em vigor, a aplicação é provisória e ainda precisa da chancela do Tribunal de Justiça e do Parlamento do bloco, um desafio devido às divergências de alguns setores de países europeus em relação à parceria.
Nos últimos dias, porém, alguns anúncios deram a entender que o encontro poderá fomentar o avanço de acordos com outras partes, no entanto.
Na sexta (26), por exemplo, o Itamaraty afirmou que o Reino Unido manifestou interesse em firmar uma parceria comercial com o Mercosul. Segundo a pasta, as negociações não começariam do zero, já que Londres participou das conversas do acordo do bloco sul americano com o europeu até sair da UE, em 2020.
Espera-se também o anúncio fomal do início das negociações de um acordo entre Japão e Mercosul, que veio à tona este mês após após uma reunião entre Lula e primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, às margens da cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França.
Se a situação não é a mais confortável para Lula, tampouco é o pior momento em termos de integração do bloco -e a até agora boa relação do petista com o presidente de ultradireita chileno é prova disso.
Em janeiro, ambos os líderes tiveram uma reunião de uma hora e meia no Panamá, em uma agenda paralela ao Fórum Econômico Internacional da América Latina. O evento também serviu para o petista tmabém se encontrar com Paz, que defende maior integração com os vizinhos e esteve no Brasil em março.
Até mesmo a relação com Milei, uma das mais difícies devido ao histórico de ofensas do argentino ao petista, já está mais pacificada.
Antes de tomar posse, no final de 2023, o ultraliberal afirmava que não se reuniria com Lula e ameaçava sair do Mercosul. Em 2024, Milei não foi ao encontro do bloco, também em Assunção, para ir a um evento conservador em Balneário Camboriú e encontrar o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Atualmente, o ultraliberal parece ter compreendido o impacto que a saída do Mercosul teria sobre o comércio da Argentina e a relação entre os dois não teve novas rusgas. O momento é delicado, no entanto -o encontro ocorre apenas quatro meses antes das eleições no Brasil, que devem ser uma nova prova de estresse entre os líderes.
Aliás, o senador e possível adversário de Lula em outubro, Flávio Bolsonaro (PL), viaja a Buenos Aires no início desta semana e planeja se encontrar com Milei, além de participar de um evento conservador promovido pelo aliado argentino.
As divergências entre os líderes devem aparecer nas declarações finais, como tem sido rotina em organismos multilaterias nos últimos anos. Os documentos finais dos encontros têm aparecido com asteriscos nos quais países manifestam as suas discordâncias, já que esse tipo de texto exige consenso.
Temas controversos costumam incluir gênero, direitos reprodutivos e racismo.
O exemplo mais recente foi a 9ª Reunião Ministerial de Zopacas (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul), em abril, quando Milei discordou de um trecho relacionado à questão racial na declaração final.
