
FLAVIA LIMA
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Não choveu, embora a previsão fosse essa para este 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana. Casa lotada, com cerca de 700 pessoas em uma estrutura montada especialmente para receber a ativista e escritora americana Angela Davis, pela primeira vez em Paraty -a décima no Brasil.
Além do palco no Sesc Caborê, um telão foi montado em frente à Casa Sesc, onde originalmente faria sua palestra, e centenas de pessoas se aglomeraram para acompanhar a mesa em duas telas que transmitiram a fala da ativista.
N
a plateia do evento, famosos como as escritoras Conceição Evaristo (aplaudida de pé) e Ana Maria Gonçalves, a jornalista Aline Midlej, a ex-deputada Erica Malunguinho, a cineasta Marina Person.
Cerca de 15 minutos antes de a mesa começar, o trânsito na rua Marechal Santos Dias, no centro histórico da cidade, já estava atravancado pela quantidade de pessoas apinhadas para acompanhar a mesa.
Davis não circulou pelo centro de Paraty, mas visitou o Quilombo do Campinho. Como resultado, escolheu um momento de sua fala para criticar incorporadoras da região e chamar a plateia à ação, mesmo em meio a uma festa literária.
“Mesmo em um festival literário, o foco não deveria ser apenas a literatura, mas também o papel que ela desempenha ao ampliar a consciência das pessoas e, sobretudo, ao servir de inspiração para o engajamento nas lutas que podem trazer mais democracia e liberdade”, disse.
Criticou “empreendedores e incorporadoras”, que criam formas de aumentar seus lucros enquanto expulsam pessoas de suas terras –muitas vezes, de terras ancestrais– e envenenam o solo de Paraty.
Respondendo a perguntas ligadas ao pensamento de intelectuais negros, em roteiro proposto por Oliveira, falou sobre eleições brasileiras e se colocou contra a família Bolsonaro.
A extrema direita, disse ela, está em ascensão nos EUA, na Europa e na América Latina, mas não representa o povo. “Costumamos associar o poder apenas àqueles que ocupam cargos públicos. É claro que devemos eleger boas pessoas para esses cargos, e sei que vocês têm uma tarefa importante pela frente aqui no Brasil”, disse.
“Vocês não podem permitir que o filho de… como é mesmo o nome dele? Seja o próximo”, afirmou, entre aplausos, em referência a Flávio Bolsonaro. Segundo ela, existe uma tradição africana relacionada ao ato de nomear. Nessa tradição, dar um nome é conferir força. “Por isso, prefiro não pronunciá-lo.”
Em referência à crítica da pensadora Lélia Gonzalez ao capitalismo, disse ser algo de que precisamos desesperadamente hoje, especialmente na era em que surgem os primeiros trilionários. Também se recusou a pronunciar o nome de Elon Musk.
“Vivemos um momento em que bilionários e trilionários exploram a terra e parecem se importar apenas em acumular cada vez mais riqueza. Eles são responsáveis não apenas pela exploração dos seres humanos, mas também pela exploração desenfreada dos recursos naturais, a ponto de a devastação ambiental alcançar um nível tão grave que talvez, no futuro, já não exista um planeta habitável.”
Questionada sobre o que é “ser Atlântica”, conceito de outra pensadora brasileira, Beatriz Nascimento, disse que sua primeira grande forma de conscientização foi o internacionalismo e ilustrou o conceito com uma de suas primeiras viagens à França.
“Fui para Paris, porque imaginava que Paris fosse a sede da justiça e da igualdade no mundo. Quando cheguei lá, porém, não encontrei o lugar que procurava, isto é, um lugar onde o racismo não determinasse as relações entre as pessoas.”
No lugar, afirmou que descobriu a revolução Argelina. “E percebi que eu podia ser solidária às pessoas na França e em outras partes do mundo. E acredito que isso é semelhante ao que Nascimento queria dizer quando afirmava: ‘Eu sou sul-atlântica’.”
Davis falou ainda de outros temas, como a violência contra a mulher e futebol, esporte que está aprendendo a gostar.
Ovacionada no fim, sentou e se dispôs a autografar dezenas de livros. Embora rejeite o epíteto de “ícone”, assim parece ser vista pela plateia que entoou até um “Angela, eu te amo”, no final.
Horas antes, às 13h40, os primeiros da fila para entrar no Sesc, Lorraine Janiques, 24, e Vitor Franco, 30, um casal de Juiz Fora, redefinia as prioridades da festa literária. “Vim para ver Angela Davis e aproveitei que estou aqui para curtir a Flip”.
Letícia Fernandes, 22, e Antonia Saravy, 18, se conheceram na fila para ver Angela. Coincidência: ambas vieram de Curitiba exclusivamente para isso. Taís veio de São Paulo e disse estar há dias se organizando para o evento, mas não conseguiu confirmar o ingresso.
“Isso em três minutos e vinte segundos. “Fiquei desesperada, estou tão mal porque estou há um mês me organizando para vir. Vim tentar alguém que desiste. Não consegui dormir.”
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