
O Tribunal de Cassação do Iraque emitiu uma decisão histórica nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, permitindo que uma cidadã iraquiana altere sua classificação religiosa oficial de muçulmana para cristã nos registros governamentais. O caso reabre o debate sobre a liberdade de crença no país, especialmente para filhos de pais que se converteram ao islamismo durante a minoridade das crianças.
Qual foi a motivação central para esta disputa na justiça iraquiana?
A batalha judicial começou porque, no Iraque, filhos menores de idade são automaticamente registrados como muçulmanos se um de seus pais se converter ao islamismo. A mulher envolvida no caso, que pratica a fé cristã, buscou o Judiciário para que sua identidade oficial refletisse sua real crença. O Tribunal de Cassação, que funciona como a última instância para revisões legais no país, deu ganho de causa à mulher, permitindo que ela restaurasse sua identidade religiosa cristã no banco de dados do governo iraquiano após anos vivendo sob as restrições da legislação anterior.
Como a legislação do Iraque trata a mudança de religião atualmente?
A questão é complexa devido ao conflito entre diferentes leis. Enquanto o Artigo 2 da Constituição do Iraque garante liberdade de crença para cristãos, yazidis e mandeus, leis de Estado Civil de 1964 e 1972 impuseram barreiras, permitindo apenas que não-muçulmanos mudem de religião. Isso criava um beco sem saída jurídico para quem era registrado como muçulmano na infância. A nova decisão se baseou em tratados internacionais, como o Pacto sobre Direitos Civis e Políticos, para garantir que o direito individual de escolha prevaleça sobre interpretações rígidas da lei local.
Quais foram as mudanças históricas sobre o direito de retorno à religião original?
Até a década de 1990, os tribunais iraquianos permitiam que jovens, ao atingirem a maioridade, retornassem à religião de origem caso tivessem sido registrados como muçulmanos por causa dos pais. No entanto, durante a chamada ‘Campanha da Fé’ no governo de Saddam Hussein, essa prática foi proibida sob o argumento de que configurava apostasia, ou seja, o abandono da fé islâmica. Somente a partir de 2020, o judiciário começou a reconsiderar esses casos de forma mais positiva, buscando alinhar a justiça iraquiana com padrões globais de direitos humanos e liberdade de pensamento.
Quais desafios ainda persistem para os cristãos no sistema legal iraquiano?
Apesar da vitória recente, existe um prazo rigoroso de apenas um ano após atingir os 18 anos para solicitar a correção dos registros, o que é visto como um obstáculo por parlamentares cristãos. O bloco parlamentar Suyana trabalha para emendar a Lei de Carteira de Identidade Nacional, visando remover esse limite de tempo e impedir o registro automático de menores como muçulmanos em casos de conversão parental. O objetivo é criar precedentes legais sólidos que protejam a liberdade religiosa de forma consistente em todo o território nacional, sem depender apenas de decisões isoladas.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.