O Rio de Janeiro/RJ foi palco de um dos confrontos mais letais de sua história recente, com uma megaoperação que colocou em xeque a capacidade do Estado de lidar com a criminalidade organizada. O saldo da ação chocou o país: 121 mortos (sendo 4 policiais e 117 suspeitos) e 113 criminosos presos. A dimensão bélica do confronto foi sublinhada pela apreensão de um vasto arsenal, que incluiu pelo menos 91 fuzis de guerra.
A magnitude das perdas, que superou em muito operações anteriores, imediatamente polarizou o debate público. De um lado, a alegação de sucesso na desarticulação de grandes facções; de outro, a crítica sobre a suposta truculência e o “exagero” na resposta policial.
A crise de conceito: Não é tráfico, é Organização Paramilitar
É necessário que o país encare a realidade: o que tem sido rotulado de “problema social” há anos transformou-se em uma ameaça de terrorismo interno. Os grupos que controlam comunidades cariocas há muito transcenderam a atividade de tráfico de drogas.
Eles agem como verdadeiras organizações paramilitares, desafiando a soberania nacional ao impor um Estado paralelo:
Poder Territorial. Cobrança de pedágios, imposição de toque de recolher e a expulsão de famílias que se recusam a obedecer, suas regras.
Controle Social. Criação e imposição de leis próprias, recrutamento e treinamento de “soldados” armados, desafiando a lei e a ordem.
O crime fortalecido, com fuzis de guerra, não é mais um problema de segurança pública tradicional; é uma ameaça à defesa do território nacional.
O Risco da Omissão: Discurso versus Realidade
A crise é agravada pela inação e pela retórica política que, muitas vezes, falha em reconhecer a gravidade da situação. Enquanto o crime se estrutura e avança, o Estado assiste “estático”, imerso em discussões e opiniões divergentes de governantes e ministros.
A tentativa de simplificar a crise, como na afirmação de que “o tráfico é culpa do usuário”, revela uma desconexão perigosa com a realidade. O usuário não é quem monta cadeias de comando, recruta e treina exércitos para dominar morros e territórios. Essa simplificação desvia o foco dos verdadeiros arquitetos da violência e, ironicamente, transforma criminosos em “vítimas” no discurso, enquanto a polícia se torna o “vilão”.
A omissão política tornou-se rotina. Enquanto o Brasil se acomoda no “fake berço esplêndido” de uma paz ilusória, o crime floresce, o inimigo avança, e o país se desmancha nas mãos daqueles que deveriam protegê-lo.
O Caminho para a Paz. O povo, refém desta guerra diária, sofre com uma situação que dilacera famílias. Fica evidente que esta é uma situação que não será resolvida com retórica.
O crime não se combate com meros discursos. Exige-se uma abordagem de defesa, estratégia e, acima de tudo, pulso forte do Estado. É o único caminho para que os brasileiros possam, finalmente, conquistar a tão sonhada paz.
- Célia Souza (jornalista e correspondente do Canal 12 em Fernandópolis)

