Nove pessoas sentadas em torno da grande mesa de uma quinta num cenário pastoral perto de Lisboa, degustando uma açorda temperada com afeto pelo chef Pedro Pena Bastos e um vinho que eu tinha acabado de descobrir, o Giz.
À sombra do frenesi das últimas 48 horas, esta é quase uma descrição de um jantar romântico. Na verdade, era apenas a continuação mais tranquila de uma celebração de sabores que começou no último sábado (19) em Cascais. E não tenho certeza se já terminou.
Vim para a “terrinha” desta vez a convite do Chefs on Fire, criado em 2018 pelo empresário Gonçalo Castel-Branco, e uma espécie de cornucópia de delícias preparada principalmente por chefs portugueses, com honrosas participações internacionais, inclusive do Brasil. Nunca tinha participado de um —e agora quero que ele faça parte do meu calendário de viagens.
Se tudo der certo, talvez eu nem precise sair do Brasil na próxima edição. Há bons rumores de que ela acontecerá, no primeiro semestre, em São Paulo. Até lá, tudo o que posso sentir pelo que aqui comi é saudade. Diga-se, algo bastante português.
Uma lista reduzida das iguarias que provei no Chefs on Fire: pizza de enguia; alheira doce; espetada de língua; croissant com nectarinas grelhadas; tacos de aspargos; gazpacho de melancia (com corvina!); ostras ao pesto; melt de sardinha…
Se me perguntassem qual foi a melhor delas, eu não saberia dizer. E o que mais me chamou atenção: tudo é feito em quantidade, com a qualidade da qual os próprios chefs se orgulham nos cardápios que assinam nos seus restaurantes.
Há bandas que circulam no parque, palcos para músicos, mas a atração principal é mesmo a comida. Ou ainda, o espetáculo da comida. É do entusiasmo com que tudo é preparado que vem toda a energia do evento.
É possível ver Gil Fernandes, do estrelado Fortaleza do Guincho (Cascais), rindo ao se lembrar da correria que foi montar sua barraca. João Magalhães Correia, do Bar Alimentar (Lisboa), convidando com ares de galhofa: “Vem experimentar a língua do João”, sua incomparável espetada, quase um mil folhas, de panceta e língua.
João Rodrigues, do Canalha, talvez meu favorito em Lisboa (e sei que estou sendo injusto ao escrever isso), mal saía de perto da fogueira onde preparava as bochechas de peixe servidas num caldo com linguiça. E o Pedro Pena Bastos, que em pouco tempo transformou seu Broto, no Bairro Alto, em referência na capital portuguesa, mesmo confessadamente exausto, não perdia a ternura ao receber a todos.
O mesmo Pedro que então, na noite seguinte à esbórnia do Chefs on Fire, trazia à mesa da Quinta da Abelheira uma açorda com porco que não seria exagero chamar de perfeita. E nem estou falando da linguiça artesanal e dos camarões sobre uma cama de ovos de gema branca que vieram antes…
A descrição dos pratos, no entanto, é uma pífia tentantiva de traduzir o carinho e o acolhimento que me receberam em Portugal desta vez. Em cada prato que eu degustava havia um ingrediente que não se acha em mercearias, nem nas mais sofisticadas. Ainda que encontrasse, não saberia bem como pedir para embrulhar e levar para casa. Pois eu falo de algo que está dentro do coração de cada chef apaixonado por comida que encontrei em Portugal.
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