No prefácio que fiz para o recém-lançado “O Livro da Pizza“, advirto o leitor: a palavra pizza se repetirá por mais de 600 vezes ao longo das páginas que escrevi em dupla com Gil Guimarães, chef pizzaiolo da Baco, de Brasília.
Não existe sinônimo para pizza. Isso mexe com os brios de editores e redatores —os manuais de redação para jornalistas julgam deselegante a repetição de termos e sugerem o emprego de expressões alternativas quando um conceito precisa ser mencionado várias vezes no mesmo texto.
Assim, o jornalismo brasileiro inventou a “redonda”, palavra aberrante e jamais proferida pelo cliente que pede pizza. Editores, não ousem: uma pizza é uma pizza.
Por falar em pedir pizza, quero trazer para cá uma questão que “O Livro da Pizza” não aborda: a viagem na caixa de papelão é um atentado contra a pizza.
O delivery encerra em si uma contradição. É, disparado, a forma mais popular de consumo de pizza, essencial para a sobrevivência do negócio; é também a pior, por uma simples razão.
A pizza sai do forno fumegante —ou melhor, vaporizante, já que a “fumaça” exalada é basicamente água. Quando você a fecha numa caixa, encalacra também o vapor. Ele se condensa na própria pizza e, como resultado, obtém-se uma pizza murcha.
Resta ao comprador reaquecer a pizza no forno, fora da caixa, durante alguns minutos. Tal manobra, porém, pode causar o efeito oposto: deixar a pizza ressecada e dura.
Ou seja: a pizza da entrega nunca será tão boa quanto aquela que você come no restaurante, fresquinha direto do forno.
Eu era um purista nesse quesito. Evitava ao máximo pedir pizza em casa e comia com frequência em pizzarias para desfrutar dessa, ponhamos assim, experiência plena.
Dois casamentos mudaram meus hábitos. Ambas as ex-mulheres não eram fãs do ambiente padrão das pizzarias, luz branca, famílias barulhentas e coisa e tal. Em especial nas noites de domingo, quando a deprê chega batendo forte.
Resignei-me e me tornei consumidor contumaz do delivery. Ainda sou. A murchidão da pizza, além de perfeitamente tolerável, é compensada pela conveniência de jantar vestindo um moletom todo esbodegado.
Para seguir comendo pizzas recém-saídas do forno, passei a fazê-las eu mesmo.
Já testei muitas receitas e métodos para emular as pizzas dos profissionais. Se algumas ficaram ótimas, todas sobrecarregam o equipamento doméstico —acumulo baixas de fornos, fundidos pelas altas temperaturas que uma massa decente exige.
Por sorte, hoje é fácil encontrar discos de pizza feitos no capricho, bem fermentados e bem assados.
Para a cobertura, escolhi uma opção que marcou minha adolescência: a pizza pomodoro, uma receita criada pela família Tussato na cantina Celeste, da Vila Mariana (e que faria razoável sucesso na Babbo Giovanni nos anos 1980).
Sabores intensos, massa pré-assada, tudo na air fryer. Não tem como dar errado.
Em tempo: a palavra “pizza” aparece 28 vezes nesta página.
Pizza pomodoro
Rendimento: 1 pizza individual
Tempo de preparo: Cerca de 1 hora
Ingredientes
- 3 tomates maduros
- 1 disco de pizza individual
- Alho cru a gosto
- 3 ou 4 azeitonas pretas descaroçadas
- 50 g de muçarela
- Sal e orégano a gosto
Preparo
- Comece por desidratar parcialmente o tomate, para concentrar seu sabor e evitar que ele encharque a massa. Corte-o em rodelas grossas e deixe por 30 minutos na air fryer ajustada para 80 ºC. Reserve
- Suba a temperatura para 200 ºC. Sobre a massa, distribua o tomate, o alho laminado e as azeitonas. Tempere com sal e orégano. Disponha a muçarela uniformemente sobre a cobertura
- Asse até o queijo derreter totalmente e ficar ligeiramente dourado
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.