A ideia inicial era passar rápido por La Boca. Já fui inúmeras vezes passear no bairro de Buenos Aires, famoso por suas casas coloridas (Caminito) e por ser o berço do time Boca Juniors. Planejei menos de meia hora por lá.
Queria fazer, para minhas redes sociais, imagens de um centro cultural chamado Proa, um achado por ali. Muitas pessoas geralmente só circulam na região tirando selfies pelas ruas com paredes de lata, visitando lojinhas de souvenir e os restaurantes com tango e parrilla no cardápio para visitantes neófitos. Pensei em sugerir algo diferente.
Em contraste com a paisagem urbana local, a fundação Proa acrescenta uma arquitetura mais moderna à vizinhança, além de oferecer exposições notáveis de arte contemporânea argentina e internacional. Achei que seria legal dividir isso com meus seguidores.
Depois de registrar algumas imagens, antes de me deslocar até San Telmo para aproveitar o resto do meu domingo na cidade, um galpão ao lado do Proa me chamou a atenção. Me dei conta de que nunca havia caminhado para aquele lado da rua e resolvi explorar.
Menos de dois minutos depois eu estava diante de um lugar que eu nunca tinha visto, apesar de ele existir lá desde 2021, como descobri logo que entrei. Você, que me acompanha aqui e provavelmente já foi a Buenos Aires, já ouviu falar do Colón Fábrica?
Fiquei deslumbrado com a “descoberta” —aspas necessárias porque o lugar já existia há um tempão; eu que nunca havia tido a curiosidade de explorá-lo.
O Colón é o principal teatro da Argentina, óbvio ponto turístico, distante apenas alguns passos do famoso obelisco da avenida 9 de julho. Mas o que vemos na Fábrica não é nenhum espetáculo, mas as monumentais estruturas de cena das montagens das óperas e balés do Colón.
Gigantes soldados chineses de barro; fachadas francesas da belle époque; uma colossal árvore de Natal; touros enormes congelados em uma curva; uma descomunal asa perdida de um anjo que magicamente flutua sobre nossas cabeças. São coisas assim que preenchem este grande e inesperadamente belo depósito.
A minha meia hora que havia reservado estendeu-se por mais 60 minutos com essa visita.
Faço questão de mencionar isso não porque perdi mais tempo do que tinha planejado, mas justamente porque me dei ao luxo de esquecer do relógio por conta dessa revelação com a qual eu não contava.
Isso geralmente acontece quando estou em cidades que conheço bem e teimosamente penso que não há mais nada ou muito pouco a explorar. É o que eu chamo de cidades infinitas, destinos capazes de surpreender mesmo os mais frequentes visitantes.
Perceber que elas são assim, infinitas, não depende delas, que sempre estão lá evoluindo dinamicamente; depende, isso sim, da nossa capacidade de explorá-las.
Foi a minha curiosidade que me fez conhecer nos últimos tempos a galeria Colbert (Paris); a Guitarrería Manuel Rodriguez (Madri); o Museu do Oriente (Lisboa); a galeria Clamp (Nova York); o ateliê de Chico Flores no Carmo, em Salvador…
E a sensacional Colón Fábrica, que desde então compartilhei no meu Instagram e divido agora com você. Se mexi com sua curiosidade, tanto melhor. As cidades infinitas estão sempre esperando por ela.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.