Há hotéis em que a gente se hospeda para conhecer a Toscana. E há hotéis em que a Toscana parece ter sido criada para ser apenas um cenário perfeito. O Castello di Casole, na região de Casole d’Elsa, é um desses.
A origem deste lugar é antiga e sua história, cheia de reviravoltas. Já foi uma pequena aldeia, com igreja, escola, casa do padre e uma enorme fazenda que produzia azeite, vinho, trigo e queijo. O vilarejo chamado Casole, que dá nome ao castelo, fica em cima de um morro visível do hotel. E é lá que mora grande parte dos funcionários que trabalham no hotel nos meses de primavera e verão, quando é aberto ao público.
O castelo original foi construído sobre um antigo sítio etrusco, antes do Império Romano, e aparece em documentos desde 998. A propriedade passou pela aristocrática família Bargagli e, muito depois, curiosamente, pelos Visconti. Foi Edoardo Visconti di Modrone que comprou o lugar que seu irmão, o cineasta Luchino Visconti, passou a frequentar nos verões dos anos 1960 e 1970. As festas com estrelas de cinema ficaram lendárias.
Hoje, o hotel pertence à Belmond, do grupo LVMH, e mistura história, luxo, design e uma boa dose de tecnologia cuidadosamente escondida.
Meu primeiro contato com o castelo, porém, é com uma chave, daquelas enormes, de ferro, de filme antigo. É com ela que devo abrir a porta do meu quarto. Mas chegando a ela, uma surpresa: a chavona, na verdade, é o chaveiro. O bloco de madeira que parecia ser o chaveiro antigo é que abre a porta. Dentro dele tem um cartão magnético absolutamente comum, daqueles que abrem qualquer hotel do mundo. Só que embrulhado.
O quarto é enorme e os hóspedes são recebidos com uma garrafa de champanhe Veuve Clicquot trincando de gelada e um pote dos morangos mais doces que eu já comi. O banheiro é uma atração por si só, com espelhos antigos e uma banheira com pezinhos dourados bem no meio.
A sensação de estar em outro tempo só é quebrada quando se presta atenção aos detalhes: a pasta de dente, da marca italiana Marvis, e os produtos para o rosto, da C.O. Bigelow. O secador de cabelos é um Dyson poderoso, desses que custam US$ 400 (aproximadamente R$ 1.995). Xampu, condicionador, sabonetes são Acqua di Parma.
E há os charminhos: um quadradinho efervescente, de qualquer coisa entre sal grosso e produto de alquimista, que se dissolve na água na banheira e parece ordenar ao corpo que relaxe. Perder a noção do tempo, aliás, parece fazer parte da experiência.
A primeira noite começa no Tosca, o restaurante ultra sofisticado do hotel. São apenas oito mesas, num ambiente de paredes de pedra e móveis italianos. A cozinha trabalha com ingredientes da propriedade e de produtores locais, em dois menus degustação, acompanhados por uma carta de vinhos que privilegia a Toscana e a Itália
E aqui confesso uma fraqueza: não encarei o menu degustação, optei por escolher uma entrada e um prato apenas. Mas claro que vieram aperitivos deliciosos preparados como se fossem docinhos de festa e comi todos. No final apareceu uma sobremesa, talvez caída do céu: um bolinho macio e quentinho, como um bolinho de chuva feito com massa de panetone e um potinho de creme de mascarpone. Você molha o bolinho naquele creme e pronto, felicidade imediata.
No dia seguinte, o café da manhã chega ao quarto, a meu pedido. Amo quando tenho essa opção. Depois, uma esticada preguiçosa na piscina até a hora do almoço. Que terminava às três da tarde. Só que o sol estava perfeito, a vista era linda e eu não quis sair dali. Não queria deixar aquelas águas, aquela paisagem, nem as cadeiras cobertas com as toalhas mais macias do planeta.
Então, em vez do restaurante, almocei no Bar Visconti, que funciona do meio-dia à meia-noite. O salão preserva afrescos no teto e o piso de mármore e tem nas paredes imagens de Luchino Visconti. A carta de coquetéis, criada pelo bartender Alessio Onida, também nasce da propriedade: ervas e botânicos dos jardins entram em infusões e releituras de clássicos, como o Negroni del Conte. A cozinha segue a mesma lógica, usando ingredientes dos Orti del Castello e de produtores locais.
O hotel produz seu próprio vinho, o Ulpaia, feito com Sangiovese e reservado aos hóspedes, além de azeite orgânico, mel e um gin produzido com ervas da propriedade. Desde 2026, há também um vermute feito com vinhos produzidos ali.
No fim da tarde, uma massagem no Essere Spa, instalado no subsolo. O espaço parece um labirinto de conto de fadas: a cada curva aparece uma sala nova, enorme e bonita. As massagens são bem conduzidas e as macas, moderníssimas. Ali, é só se entregar. Sessenta ou noventa minutos escorrem pelas mãos.
Na saída, porém, uma visão quase trágica: uma academia tinindo, com os aparelhos mais modernos, para aquele universo paralelo em que às vezes penso que deveria habitar, o das pessoas que fazem exercícios em viagens. Talvez essa seja uma aventura que ainda não esteja ao meu alcance. Autoconhecimento é tudo nessa vida. Autoperdão, então, nem se fala.
Relaxada e alerta, era hora de fazer um agrado ao mundo: vestir um vestido, escolher um acessório e me juntar aos outros hóspedes para assistir ao pôr do sol. Um dos mais coloridos que me lembro de ter visto. Com drinques e aperitivos, afinal estamos na Itália, não em um spa.
O jantar foi no Emporio del Castello, diante do antigo pátio. A cozinha é mais informal, com massas, carnes, sobremesas e pizzas assadas num forno a lenha do século 17. Se chove ou venta, o restaurante vai para um espaço protegido. Naquela noite, a sorte estava do meu lado e a mesa ficou do lado de fora.
De volta aos meus aposentos, que depois de pouco mais de 24 horas já pareciam meus desde o nascimento, veio um susto. A televisão, escondida num armário de madeira diante da cama king size, não tinha streaming.
Um funcionário veio rapidamente resolver aquela emergência tecnológica e explicou que a ausência de streaming é uma determinação da Belmond, rede à qual pertencem, no Brasil, o Copacabana Palace e o Hotel das Cataratas. Não chequei a informação, em vez disso, optei por me deixar levar por um dito popular italiano: “Se non è vero, è ben trovato”. Se não é verdade, pelo menos é bem contado.
Naquela altura, porém, não parecia mesmo ser uma noite para ver notícias. E meu italiano não é bom o suficiente para acompanhar “O Poderoso Chefão“, que passava num dos canais a cabo, dublado.
Foi assim que, pela primeira vez em muitos anos, escrevi uma carta. Para mim mesma. No papel elegantíssimo, com a marca do castelo, usando uma caneta igualmente sofisticada. O conteúdo é privado e não será revelado aqui. Mas posso dar um spoiler: a carta não foi postada. Ficou lá, no hotel.
Talvez essa seja a melhor lembrança que eu tenha trazido de três dias em que quase não fiz nada: uma carta que ficou para trás. Para ser lida quando eu voltar. Porque, naquele lugar, até o futuro parece uma boa desculpa para voltar ao passado. Só espero não demorar muito.
A jornalista se hospedou a convite da Belmond