Bahia celebra 2 de Julho, que ascende como marco da Independência no Brasil

(FOLHAPRESS) – Quando as imagens do caboclo e da cabocla cruzarem os portões do Pavilhão da Lapinha, em Salvador, na madrugada desta quinta (2), homens e mulheres estarão nas ruas para saudar as figuras míticas que representam o povo na guerra pela Independência na Bahia.

Mais do que um simples gesto de devoção, a reverência sumariza um patrimônio cultural de 203 anos, que une fé, identidade e memória em torno do 2 de Julho, a mais popular festa cívica do país.

A Bahia celebra o dia em meio a uma expansão de seu reconhecimento institucional, acadêmico e cultural, em um movimento que pretende projetar a data como um dos marcos centrais da consolidação da Independência do Brasil.

“O Sete de Setembro não dá conta da diversidade de experiências vivenciadas nas províncias. A Independência foi mais complexa, conflituosa e com personagens que ficam soterradas sob o mito do Grito do Ipiranga”, aponta o historiador Sérgio Guerra Filho, professor da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).

No campo legislativo, a Câmara dos Deputados e o Senado aprovaram neste primeiro semestre um projeto de lei do deputado Leo Prates (Republicanos-BA) que transfere a capital do Brasil para Salvador no dia 2 de julho. O presidente Lula (PT) sancionou a lei nesta quarta-feira (1º).

Embora tenha caráter apenas simbólico, a transferência da capital reconhece a importância da campanha militar travada na Bahia entre junho de 1822 e julho de 1823, considerada decisiva para a manutenção da unidade nacional.

A iniciativa da transferência da capital não surgiu de forma isolada. No ano passado, Lula encaminhou à Câmara dos Deputados um projeto que faz de 2 de julho o Dia Nacional da Consolidação da Independência do Brasil. A proposta ainda não foi apreciada pelo Congresso.

O próprio presidente tem reforçado a importância da data, tendo participado dos cortejos de 2022 até 2025 -este ano ele ficará fora da festa por recomendações médicas, após o tratamento de um câncer de pele.

Anos antes, em 2018, foi aprovada uma lei que inscreve no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria os nomes de Maria Quitéria, Joana Angélica, Maria Felipa e João das Botas como mártires da Independência, dando relevo a personagens que permaneceram à margem na narrativa sobre a Independência.

Esses atos acompanham uma transformação que ocorre na historiografia e na memória pública sobre Independência, alargando o episódio para além do 7 de setembro de 1822, quando dom Pedro proclamou a ruptura política com Portugal às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo.

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a tratar a independência como um processo amplo. Ele foi marcado por batalhas, disputas políticas e participação popular.

Sérgio Guerra Filho destaca o caráter nacional das batalhas travadas na Bahia em 1822 e 1823, vencidas com o auxílio de contingentes militares de províncias como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Sergipe.

Na Bahia, novas pesquisas dão relevo a aspectos até então desconhecidos do processo de Independência, incluindo detalhes sobre a participação de mulheres, de negros e das vilas do interior da então província na campanha militar.

Exemplo disso é a história de Urânia Vanério, menina de 10 anos que escreveu o até o então anônimo panfleto “Lamentos de uma Baiana”, feito no calor dos conflitos que varreram Salvador em fevereiro de 1822. Sua história foi contada em 2023 por Patrícia Valim, professora da Universidade Federal da Bahia.

No mesmo ano, Milton Moura e Felipe Peixoto Brito apresentaram um artigo com indícios documentais da possível existência de Maria Felipa, mulher negra e marisqueira que teria lutado na guerra e cuja história permaneceu na memória oral da Ilha de Itaparica.

Igor de Almeida reconstituiu a história do soldado-tambor Manuel Soledade, ferido em batalha na cidade de Cachoeira em junho de 1822. Marianna Teixeira Farias apontou novas facetas de Maria Quitéria, mulher que fingiu ser homem para lutar e foi condecorada por d. Pedro 1º após a guerra.

Francisco Cancela, Moisés Frutuoso e Zezito Rodrigues destacaram a atuação de vilas como Porto Seguro, Rio de Contas e Caetité na guerra. Patrícia Santos apresentou em sua tese a presença de pretos, pardos, mulheres e indígenas em batalhões nas ilhas da Baía de Todos os Santos.

Iniciativas no campo cultural ganham fôlego. A escritora e roteirista Manuela Dias anunciou a produção de um filme sobre as heroínas do 2 de Julho em parceria com o ator e diretor Antônio Pitanga.

A data cívica também ganhou tração na internet, com ares de fenômeno pop, impulsionados por vídeos e esquetes humorísticos, caso de conteúdos produzidos por nomes como Matheus Buente e Ivan Mesquita.

Buente, que além de humorista é historiador, lembra que a história é um campo em constante disputa e afirma que o 2 de Julho busca uma correção histórica ao apontar que a independência não foi pacífica e foi protagonizada por pessoas comuns.

“Popularizar o 2 de julho como marco da Independência é fazer o brasileiro se reconhecer dentro da própria história. É fazer com que as pessoas possam olhar para a história do país e se enxergar nela”, afirma.

O Grito do Ipiranga, afirma, é insuficiente para explicar a construção do Brasil como uma nação unificada. Nas margens do rio Paraguaçu, na Bahia, soldados ainda afiavam espadas e engatilhavam as armas nos meses seguintes ao 7 de Setembro. O inimigo ainda estava à espreita.

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Notícias ao Minuto | 04:45 – 02/07/2026

Fonte: Notícias ao Minuto

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