
Na madrugada deste domingo (16), a Rússia declarou ter derrubado mais de 800 drones ucranianos — um dos maiores ataques aéreos de Kiev desde o início da invasão. Ao menos seis pessoas morreram, cinco delas em Rostov, no sul do país.
Imagens geolocalizadas mostraram um grande incêndio em um armazém da Wildberries, maior varejista online da Rússia, na região de Moscou. Drones caíram sobre 17 regiões, principalmente no sul e no oeste, segundo o Ministério da Defesa russo.
A agência estatal TASS classificou o lançamento como o maior ataque de drones ucranianos desde o começo do ano. Sobre a capital, defesas aéreas e unidades de guerra eletrônica derrubaram ou neutralizaram 187 aparelhos, relatou o governador Andrey Vorobiev. O episódio não é fato isolado: é a face mais visível de uma estratégia aperfeiçoada há meses, com lógica econômica simples — drones baratos, produzidos em escala industrial, contra bilhões em infraestrutura, defesa aérea e capital político do adversário.
Baixas civis russas dobram em sete meses
Os ataques a armazéns, refinarias e instalações industriais no interior da Rússia viraram rotina. Dados compilados pelo Conflict Intelligence Team (CIT), grupo independente que monitora baixas, e reportados pelo The New York Times mostram aescalada: 327 civis morreram em território russo fora das zonas ocupadas nos primeiros sete meses de 2026, mais que o dobro das 145 mortes do mesmo período de 2025. Outros 2.366 ficaram feridos.
O ataque mais letal ocorreu na segunda-feira (10): ao menos 13 mortos em uma refinaria de Nizhnekamsk, no Tartaristão, a cerca de 885 quilômetros a leste de Moscou. Em junho, um bebê de seis meses morreu quando um aparelho incendiou sua casa em Yegoryevsk, a 110 quilômetros da capital. Neste mês, sete pessoas, três delas crianças, morreram quando um drone caiu sobre uma praia lotada no sul da Rússia. Kiev afirma que não tem civis como alvo e que mira a máquina de guerra russa.
Drones baratos derrotam defesas bilionárias
A equação favorece quem ataca. Um aparelho de baixo custo, muitas vezes montado com componentes civis, obriga o defensor a gastar uma fração desproporcional do orçamento para abatê-lo — quando consegue. Em uma única noite, centenas de lançamentos forçam o adversário a queimar munição de defesa aérea, expor posições de guerra eletrônica e degradar a prontidão operacional. O ônus recai sempre sobre quem defende.
A evidência mais eloquente veio do The Wall Street Journal, em 13 de agosto. Em uma simulação na Alemanha, unidades ucranianas de drones derrotaram sem dificuldade uma brigada blindada americana — cerca de 3.500 militares da 3ª Brigada Blindada da 1ª Divisão de Cavalaria, com apoio do 412º Regimento de Forças de Sistemas Não Tripulados, o Nemesis.
Para o general Alexus Grynkewich, principal líder militar da Otan, “não existe treinamento assim nos Estados Unidos”, e “a mudança é notável” depois que as forças aliadas exercitam contra os ucranianos. Eliot Cohen, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), foi mais duro: “É vital que os militares americanos dominem isso e, até agora, infelizmente, não parece ser o caso.”
A conta alcançou o próprio Pentágono: bilhões gastos em tecnologia de drones e contra-drones, unidades especializadas criadas — e, ainda assim, aparelhos iranianos de longo alcance mataram e feriram soldados americanos no Oriente Médio neste ano. Agora, Washington testa drones ucranianos para compra e usa sistemas antidrones validados na guerra para defender suas forças no Irã.
Ucrânia vira laboratório do Ocidente
A guerra ucraniana virou laboratório do Ocidente — e os ucranianos, seus fornecedores. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, ampliou o número de militares enviados a Kiev para estudar as lições do campo de batalha. Exercícios da Otan com forças ucranianas multiplicaram-se, com resultados constrangedores também para britânicos, estonianos e suecos.
O ex-comandante ucraniano Valeriy Zaluzhniy argumenta que essas armas tornaram a guerra de manobra tradicional inviável, por ora. A tese explica a linha de frente estática e aponta o rumo dos próximos ciclos de inovação militar. Para países que ainda tratam os sistemas não tripulados como tática de nicho, a mensagem é direta: a equação custo-benefício que reescreve a guerra moderna tem um vencedor claro — e a conta já chegou para o Exército americano em Hohenfels.
Aprovação de Putin despenca com a escalada
A assimetria, porém, não se mede só em munição. Ela se mede em rublos — e é aí que a guerra de drones atinge o bolso e a política russa. A The Economist documentou o salto estratégico: em 18 de julho, a Ucrânia bombardeou dois armazéns gigantes da Wildberries, a equivalente russa da Amazon, em Moscou e Tambov, 475 quilômetros a sudeste, destruindo cerca de 150 bilhões de rublos (US$ 1,9 bilhão) em mercadorias.
Oito civis morreram e mais de 80 ficaram feridos. Quatro dias depois, novos ataques no sudoeste do país deixaram uma mulher morta.
O presidente Volodymyr Zelensky justificou os ataques como “resposta aos ataques russos contra nossa infraestrutura civil e nossas cidades e comunidades” e apontou razão operacional: soldados e voluntários ucranianos usam a Wildberries para comprar componentes de drones e coletes à prova de balas. A plataforma é o equivalente russo da Amazon: milhões de clientes e centenas de milhares de empresas dependem dela.
Pesquisas apontam desgaste do Kremlin
Os efeitos políticos aparecem nas pesquisas. Segundo a VCIOM, instituto ligado ao Kremlin, a satisfação com as políticas do governo caiu de 45% em janeiro para 21% em junho. A Levada, pesquisa independente, apontou que os russos que veem o país na direção errada dobraram: de 17% para 35% em um ano. O The New York Times registra o recuo mais acentuado na aprovação de Putin desde o início da invasão.
Putin classificou os ataques como “intimidação psicológica” e pediu resistência. O mesmo instrumento que usou para levar a guerra às telas de televisão agora se volta contra ele: apenas 37% dos russos confiam na TV estatal, ainda que 56% a citem como principal fonte de informação, destaca a The Economist. As eleições parlamentares, em dois meses, ocorrerão sem disputa real: Moscou barrou candidatos que se opõem à guerra, e o Kremlin declarará o resultado que quiser.