Meu São João teve fogueira. Teve também sanfona e pandeirão. Teve boi e indígenas. Chapéu de fita e colar de crochê. Mungunzá e arroz de cuxá. Sobretudo, teve paixão e Brasil.
Estive esses dias no Cariri paraibano e em São Luís do Maranhão, dois locais que me devolveram o significado de uma festa que eu temia estivesse se perdendo. Estive esses dias no Cariri paraibano e em São Luís do Maranhão, dois locais que me devolveram o significado de uma festa que eu temia estivesse se perdendo —a força das nossas tradições.
Começo a contar esse trajeto junino pelo lajedo do Marinho, Paraíba, onde celebrei o São João dançando quadrilha com um punhado de gente em volta de uma fogueira ao som de Wagner Sanfoneiro, hipnotizando todos como um certo flautista de Hamelin.
Eu estava mais uma vez no Cariri, pelas mãos dos irmãos Buriti, Pablo e Thiago. As experiências de imersão oferecidas pela agência deles, a Visu, são perfeitas para quem quer viver um Brasil profundo. Desta vez, eles somaram o encantamento do São João ao roteiro .
A simplicidade da festa no lajedo somou-se à grandiosidade das quadrilhas de Campina Grande —mais que uma ruptura, uma evolução. E descobri a dedicação por trás desse ritual visitando o tradicional Arraial em Paris.
“Quadrilha é desespero”, contava, com humor, Elisson, o coreógrafo do grupo. Por trás de uma competição, muitos ensaios, perrengues e suor. Roteiros elaboradíssimos trazem assuntos atuais sem nunca abandonar o ponto alto da apresentação. O casamento!
Deixei a Paraíba já com outra visão sobre o São João. Sem concessões aos megaeventos genéricos, que hoje parecem dominar a temporada, as festas juninas autênticas estão fortes como nunca, também em São Luís.
Cheguei lá no domingo por um motivo, admito, bem pagão: ser DJ na Low, um bar de vinil. Você leu direito —em plena São Luís, um lugar para amantes de discos, onde tive o prazer de tocar de Joy Division a Chaka Khan.
Ali mesmo, amigos recentemente feitos em torno da música já queriam me levar para a festa de São Pedro, para ver os bois que saem na madrugada para pegar a bênção na capela de São Pedro, no tradicional bairro de Madre Deus.
Ir direto me pareceu uma certa loucura, mas, depois de três horas de sono, eu já estava na frente da Casa das Minas ouvindo os tambores que lá passavam. E que espetáculo incrível foi aquele.
Em 2015, lá em São Luís, conferi belas apresentações de bois que me introduziram a esse universo de cores e batuques. Mas o mergulho ali em Madre Deus foi mais profundo.
Eram bois de todo o Maranhão a caminho da capela, e todos, fossem simples ou elaborados, transbordavam beleza. Adereços de cabeça, máscaras de fazer inveja a Salvador Dalí, mantos psicodélicos, chapéus que são mosaicos de miçangas. Tudo disputava meu olhar.
E me entreguei. Mais de uma vez me vi dançando em meio a caboclos de penas e mantos de paetês. Delirando, a certa altura me vi com um daqueles pandeirões na mão tentando me encaixar no ritmo denso daqueles percussionistas.
Cada boi, vale lembrar, avança com sua própria fogueira na qual os músicos literalmente esquentam seus tambores, uma cena que eu nunca havia visto, em meio a uma festa que eu nunca tinha conferido.
Essas foram duas vivências que só me enriqueceram. A Paraíba me lembrou que, quanto mais simples, melhor a festa. Já o Maranhão não me deixou esquecer que a origem de tudo é a fé, que vi desfilar nobremente na festa de São Pedro, nesse mágico São João, daquela linda São Luís.
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