Em “As Vinhas da Ira”, romance de 1939 de John Steinbeck, a família Joad toma a rota 66 para fugir da seca no Oklahoma e encontrar nova vida na Califórnia.
Em 1957, a rodovia volta a aparecer no seminal “Pé na Estrada”, de Jack Kerouac. Nessas páginas, o jovem Sal Paradise olha com certo deslumbramento para os “andarilhos de cabelos compridos e aspecto arruinado” que tomavam aquele caminho.
Menos de 20 anos separam os dois livros, e o retrato daquela via que cruza oito estados americanos não podia ser mais diferente. Ou complementar, talvez. Tábua da salvação, escolha existencial, ode ao automóvel, túmulo do kitsch —tudo cabe para defini-la.
Na próxima quarta (11), a rota 66 chega aos cem anos atravessando literatura, cinema e música e ajudado a cristalizar certa imagem dos Estados Unidos. A de um país que marchou bravamente para o oeste, como mostram os filmes de caubói —a história revela, porém, que a marcha não foi tão gloriosa. Que o digam os indígenas.
Partindo da cidade de Chicago, a estrada percorre 4.000 quilômetros até terminar no píer de Santa Mônica, reduto hippie em Los Angeles, à beira do oceano Pacífico. Ali há lanchonetes com aspecto vintage, um parque de diversões antigo e lojas de souvenir que vendem lembrancinhas a quem completou todo o percurso.
Para o centenário da rota, o Brand USA, órgão de promoção do turismo americano, mapeou cerca de 250 locais como museus, bares e lanchonetes que contam a história daquela que eles chamam de “rodovia- mãe” dos americanos. Dá para ver esse mapeamento interativo, com textos em português, no site.
Deixando Chicago, terceira maior metrópole do país —atrás apenas de Nova York e Los Angeles—, e os seus subúrbios industriais, a paisagem é tomada pelas planícies do meio-oeste, com plantações infinitas de milho e silos de grãos.
Nos quilômetros iniciais da rodovia,em Pontiac, ainda no estado de Illinois, há o Route 66 Hall of Fame, museu que expõe fotos, cartazes, placas e antigas bombas de gasolina. A entrada é gratuita.
Mais adiante na estrada, as montanhas e florestas da região dos Ozarks (a mesma da série homônima) introduzem o estado do Missouri. Ali, a oferta fica bem kitsch . A cidade de Cuba exibe com orgulho um monumento de quase 13 metros de altura—a maior cadeira de balanço do mundo, segundo o Guinness. Só não dá para ninguém sentar nela.
Já o título de segundo maior garfo do planeta parece pertencer aos habitantes de Springfield, no mesmo estado. O talher de 10 metros e 11 toneladas também está fincado na rota. É uma pena que tenham perdido o pódio para a cidade de Fairview, no Oregon, que fica bem longe da rota 66.
No estado do Kansas são apenas 21 quilômetros de estrada, com destaque para a Rainbow Bridge, ponte de ferro que é ainda mais antiga do que a rodovia.
Os diners, motéis antigos e postos abandonados de Oklahoma e Texas acrescentam uma camada histórica extra. Foi dali que migraram famílias miseráveis durante a Grande Depressão dos anos 1930. Muitas também fugiam do Dust Bowl, os ventos de poeira que devastavam as colheitas.
Novo México e Arizona são dominados pela paisagem desértica e pelas influências indígena e hispânica. Pense nos cenários dos filmes de faroeste e nas andanças dos motociclistas do filme “Sem Destino”, síntese da rebeldia sessentista que é mais conhecido por seu título original, “Easy Rider”.
A Califórnia libertária e ensolarada, terra da fama e das promessas, é o ponto final. Mas até chegar ao mar, o motorista terá de vencer o congestionamento infernal da maior cidade daquele estado, Los Angeles, e suas infinitas freeways.