Grande novidade desta temporada de cruzeiros no Brasil, a estreia da Corazul Cruzeiros, com o navio Buenavista, teve ares de Fyre Festival —festival de música nas Bahamas que em 2017 se tornou sinônimo de fiasco.
Com uma proposta de valor popular (com all-inclusive inclusos na tarifa), o cruzeiro mirou o público que ficou órfão da Pullmantur, extinta na pandemia. A viagem inaugural, no entanto, foi marcada por filas, desorganização, piscinas fechadas e problemas mais graves, como goteiras, vazamentos de esgoto, falta de água quente e até de descargas nos banheiros de algumas cabines.
Operado por uma nova companhia espanhola, a Corazul Cruceros, o Buenavista chegou ao Brasil já sob desconfianças. Afirmando que o desempenho comercial havia sido abaixo do esperado no mercado europeu, a empresa cancelou a sua estreia no Mediterrâneo no último verão, optando por iniciar sua operação diretamente no Brasil.
Assim, o navio, que até então era operado a partir de Hong Kong por outra companhia, sob o nome Piano Land, veio do território autônomo para o Brasil. A primeira saída de Santos, programada para o dia 26 de outubro, foi cancelada —a empresa não informa o motivo, mas fontes afirmam que o navio quebrou duas vezes durante o traslado.
A primeira partida do barco, agora rebatizado como Buenavista, com destino ao Rio de Janeiro e Búzios, aconteceu na sexta, 30 de outubro, já com atraso de duas horas em relação ao previsto devido a um embarque confuso. A maioria dos passageiros era formada por agentes de viagem, influenciadores e jornalistas —incluindo a reportagem da Folha. Mas havia também algumas dezenas de passageiros pagantes, remanejados da saída cancelada.
Se os últimos grupos embarcados se irritaram com a lentidão do processo, quem conseguiu embarcar cedo se deparou com um cenário de desorganização geral.
Nas primeiras horas, apenas o restaurante bufê estava aberto, e os poucos bares já em operação não tinham tripulantes suficientes para dar conta da demanda, provocando filas, que eram únicas —mesmo quem queria só água tinha de aguardar com quem buscava uma caipirinha.
A cabine em que este repórter se hospedou não apresentou problemas. Mas logo começaram a correr relatos de suítes com goteiras, sem água quente no chuveiro e até mesmo sem descarga funcionando.
Das três piscinas do navio, apenas duas estavam abertas. E no dia seguinte, já no Rio de Janeiro, uma delas foi esvaziada e fechada. A própria chegada ao Rio, aliás, atrasou, reduzindo o tempo disponível na cidade, o que aumentou o clima de insatisfação que, a essa altura, já era grande.
É que, já na primeira noite, e depois também na segunda, as filas para o jantar nos dois restaurantes à la carte atravessavam o navio quase de proa a popa. Em um deles, a espera foi tanta que se transformou numa grande aglomeração. Com fome e uma espera que passava de duas horas, muitos optaram por jantar no bufê, onde a comida era insossa e havia fila para as bebidas.
A programação do dia era divulgada sempre em cima da hora. E foi assim que os passageiros descobriram, ao chegar a Búzios por volta das 8h da manhã do domingo, que todos deveriam estar de volta a bordo às 12h30 —segundo a organização, devido a condições climáticas no trajeto de volta a Santos.
Como Búzios não tem porto, o desembarque no balneário fluminense teve de acontecer por meio de lanchas. A tripulação organizou essa logística distribuindo senhas assim que o navio atracou por lá. Havia pelo menos 31 grupos de senhas, mas, devido ao tempo reduzido no destino, só os primeiros 16 desembarcaram.
Os sucessivos infortúnios revoltaram os passageiros. Logo após a partida de Búzios, o COO da Corazul Cruceros, Camille Appeldoorn, e o CEO da R11 Travel (que representa a Corazul no Brasil), Ricardo Amaral, convocaram os agentes de viagem para uma reunião no teatro.
Os executivos tentaram pôr panos quentes na situação, reconhecendo as falhas e prometendo aprimorar a operação. Mas muitos agentes, alguns deles com clientes embarcados, já se sentiam constrangidos e pediam o cancelamento de saídas futuras já vendidas.
O coro foi engrossado por passageiros pagantes que, mesmo sem convite, entraram na reunião exigindo reembolso total. A princípio, a R11 ofereceu 50% de desconto numa saída futura, mas, diante da revolta, cedeu e prometeu 100% de reembolso da viagem, além de 25% de desconto numa próxima.
Naquela noite, a fila para o jantar no restaurante Corazon estava menor. É que um cano de esgoto do banheiro do andar de cima estourou, trazendo um cheiro desagradável para a porta do restaurante.
Após três dias de confusão em alto-mar, o desembarque em Santos foi igualmente desorganizado. Revoltados e cansados, os passageiros decidiram não respeitar a divisão de grupos proposta pela tripulação, o que gerou aglomerações em diversos andares.
Mesmo em meio ao caos, a tripulação do navio parecia fazer o possível para contornar a situação, com cortesia e sorriso no rosto —embora, no início, poucos falassem português, como prometia a Corazul. Muitos eram veteranos de outras companhias de cruzeiro, reconhecidos pelos passageiros mais assíduos.
Apesar das falhas estruturais, vale dizer que o navio, embora antigo, está bem preservado. Os diversos bares e lounges têm ambientações datadas, mas ainda luxuosas —longe de estarem em decadência, como supunham cruzeiristas mais fanáticos que criticaram o fato de a embarcação ter chegado em Santos suja por fora.
Ou seja, o problema pareceu ser mesmo da gestão, que aparentemente optou por iniciar uma operação com um número de tripulantes abaixo do necessário para sustentar uma operação mínima.
Em nota enviada à imprensa, a Corazul disse lamentar os transtornos. Afirmou que todos os relatos estão sendo analisados, e que diversas adequações já foram efetuadas durante a viagem —o que de fato aconteceu. Segundo a companhia, o quadro de tripulantes está sendo ampliado, assim como a oferta de alimentos e bebidas, e as piscinas estarão em pleno funcionamento para os hóspedes a partir da próxima saída
A empresa orienta os passageiros, desta e de futuras saídas, que tiverem dúvidas ou solicitações, a procurarem seus respectivos agentes de viagem.