Chipre: entre águas cristalinas e a memória de Varosha – 05/10/2026 – Turismo

A chegada a Chipre começa com uma surpresa: a facilidade. Pelo aeroporto internacional de Larnaca, uma das principais portas de entrada na ilha, o processo de chegada é simples e organizado. E o deslocamento até as principais cidades e regiões turísticas pode ser feito sem grandes dificuldades.

Há opções de transporte público e táxis para diferentes destinos. Os ônibus conectam o aeroporto a áreas importantes da ilha, enquanto os táxis oferecem uma alternativa para quem busca mais comodidade. Para quem deseja conhecer regiões mais afastadas, também existem linhas que facilitam o acesso aos principais pontos turísticos.

Apesar de ser um país ainda pouco lembrado por muitos viajantes, Chipre reúne uma combinação que chama atenção: praias de águas azul-turquesa, boa estrutura turística, gastronomia mediterrânea e uma história marcada por uma das divisões territoriais mais complexas da Europa.

Um dos lugares que representam essa mistura entre beleza e história é Varosha, em Famagusta. Para chegar à cidade fantasma, é preciso atravessar uma fronteira dentro da própria ilha.

Chipre é internacionalmente reconhecido como um único país, mas permanece dividido desde 1974. O sul é a República de Chipre, reconhecida pela comunidade internacional e membro da União Europeia desde 2004. O norte é administrado pela República Turca do Norte de Chipre, proclamada em 1983 e reconhecida apenas pela Turquia.

A passagem entre os dois lados acontece pelos chamados checkpoints. Para atravessar do sul para o norte, é necessário apresentar o passaporte e passar pelo controle de fronteira, que também é possível atravessar a pé. O visitante deixa uma parte da ilha e entra em outra administração, embora oficialmente continue dentro de Chipre.

Em Famagusta está Varosha, uma antiga área turística que se transformou em uma das cidades fantasmas mais conhecidas do mundo.

Em 20 de julho de 1974, a Turquia invadiu Chipre após um golpe apoiado pela junta militar grega. Cerca de 39 mil a 40 mil moradores de Varosha deixaram suas casas acreditando que voltariam poucos dias depois. A volta nunca aconteceu.

Antes do conflito, Varosha era um dos destinos mais sofisticados do Mediterrâneo. Seus hotéis à beira-mar recebiam turistas internacionais e celebridades como Elizabeth Taylor e Brigitte Bardot.

Depois da invasão, hotéis, edifícios residenciais, lojas e restaurantes permaneceram abandonados durante décadas. Parte da área foi reaberta para visitantes em 2020, permitindo que turistas voltassem a circular por uma paisagem urbana praticamente congelada no tempo.

A entrada em Varosha revela um contraste imediato. Existe uma estrutura para receber visitantes, com banheiro, lanchonete e wi-fi. Mas, depois de alguns metros, essa sensação desaparece e o cenário muda completamente

A área permitida para visitação revela casas abandonadas, fachadas deterioradas, antigos estabelecimentos comerciais e ruas onde a arquitetura passou a contar a história de uma cidade interrompida.

As casas foram saqueadas ao longo das décadas. Não há móveis ou quaisquer outros objetos que revelem quem viveu ali. Restaram construções, letreiros e pequenos detalhes que ajudam a imaginar a rotina que existia antes da fuga dos moradores.

Não é permitido entrar em nenhuma casa; os avisos são bem claros. As placas alertam: “Atenção! O edifício pode desabar. É perigoso entrar ou aproximar-se do edifício.” E também: “Zona proibida —entrada proibida”.

Alguns militares ficam na região. A ONU também está presente. A fachada da Toyota é uma das imagens mais conhecidas de Varosha. Mas outros pontos também chamam atenção, como os antigos letreiros da Kodak, cartazes da 7up, entre outros, e da Singer. A antiga loja da Singer desperta uma lembrança afetiva em muitos visitantes, já que a máquina de costura era um objeto presente em muitas casas durante décadas.

Caminhar pela área reaberta de Varosha é percorrer uma cidade onde a ausência dos moradores se tornou a principal marca da paisagem.

A visita também revela que aquele não é apenas um cenário de abandono. Para muitos cipriotas, Varosha está ligada a histórias familiares e lembranças que permanecem presentes décadas depois da divisão da ilha.

O assunto continua sendo delicado para muitos moradores. Algumas famílias tiveram suas casas em Varosha e nunca puderam retornar. Por isso, a história do local exige um olhar cuidadoso: mais do que uma atração turística, Varosha representa uma parte complexa da história de Chipre.

Mas Chipre vai muito além da história de sua divisão. A ilha combina praias de águas cristalinas, sítios arqueológicos e uma gastronomia que mistura diferentes influências do Mediterrâneo.

Em junho, antes do auge do verão europeu, o movimento nas praias estava muito tranquilo, com uma presença maior de moradores locais e visitantes em busca de uma experiência menos movimentada. O período também revelou um destino ainda distante do turismo de massa encontrado em algumas regiões do Mediterrâneo.

Comparado a destinos mais disputados, como algumas ilhas gregas, Croácia ou mesmo praias internacionais como a Tailândia, Chipre apresenta uma relação equilibrada entre preço e experiência.

As praias são um dos grandes atrativos da ilha. O mar apresenta diferentes tons de azul-turquesa, com águas transparentes e paisagens que lembram alguns dos destinos mais famosos do Mediterrâneo, como as praias de Mykonos, na Grécia, a Blue Lagoon, em Malta, e Polignano a Mare, na Puglia, Itália.

A transparência da água e a variedade de tons de azul estão entre as características que mais chamam a atenção no litoral de Chipre.

Uma das características mais interessantes é a proximidade entre diferentes praias. Ao longo do litoral, é possível encontrar desde praias mais conhecidas e estruturadas, com bares, restaurantes e atividades aquáticas, até praias menos conhecidas, algumas mais tranquilas e com pouca movimentação, mas com a mesma beleza natural.

Entre as praias mais conhecidas estão Nissi Beach, Makronissos Beach, Konnos Bay e Fig Tree Bay, cada uma com características próprias, mas todas marcadas pelas águas cristalinas e pelos diferentes tons de azul.

Muitas praias têm avisos de proibição de música, o que torna a experiência mais agradável para quem busca um lugar tranquilo para relaxar. Mesmo nas praias mais tranquilas, a estrutura surpreende.

Pequenos quiosques ou trailers aparecem pelo caminho, com opções de bebidas, lanches e refeições simples. Para quem pretende passar muitas horas na praia, levar água e algum alimento continua sendo uma boa recomendação, mas a presença de estrutura facilita bastante a experiência.

Outro ponto que chama atenção é a facilidade de deslocamento. Muitas das principais praias de Chipre podem ser acessadas por transporte público.

As linhas de ônibus têm paradas próximas às áreas mais visitadas e, em muitos casos, os próprios nomes das paradas correspondem aos nomes das praias, facilitando a localização para quem está conhecendo a ilha pela primeira vez.

O visitante consegue chegar muito perto do mar sem depender exclusivamente de carro, táxi ou aplicativos de transporte.

Muitos ônibus oferecem Wi-Fi gratuito, uma comodidade importante para turistas que ainda não possuem internet funcionando no celular.

Também é possível fazer alguns trajetos caminhando entre praias próximas. Não são trilhas de difícil acesso, mas caminhos estruturados, muitas vezes com piso de pedra, que permitem explorar diferentes pontos do litoral com segurança.

A organização das praias também chama atenção. As cadeiras e guarda-sóis são administrados pelas autoridades locais, mantendo valores mais acessíveis. Em média, uma cadeira custa € 3,50 (aproximadamente R$ 21) e o guarda-sol € 3 (aproximadamente R$ 18).

O funcionamento é simples: o visitante escolhe o local, aproveita a praia e em algum momento do dia um funcionário passa para realizar a cobrança. Sem a pressão de consumir em restaurantes ou pagar valores elevados, o sistema torna mais confortável passar o dia inteiro à beira-mar.

Muitas praias contam ainda com banheiros e chuveiros, uma estrutura que faz diferença para quem deseja permanecer por várias horas.

Uma ótima parada entre uma praia e outra é o Parque de Esculturas de Ayia Napa. São mais de 200 esculturas ao ar livre, com entrada gratuita, espalhadas por uma área que combina arte e paisagem natural.

Na gastronomia, o halloumi aparece como um dos grandes símbolos de Chipre. O queijo tradicional da ilha está presente em muitos cardápios, servido grelhado, em saladas, sanduíches e como acompanhamento de diversos pratos.

Outras especialidades também revelam a identidade culinária cipriota. A sheftalia, uma espécie de linguiça tradicional feita com carne de porco ou cordeiro; o souvla, carne assada lentamente na brasa; o kleftiko, cordeiro cozido até ficar extremamente macio; e o meze, uma sequência de pequenos pratos para compartilhar, fazem parte da experiência gastronômica local.

A hospitalidade também aparece depois das refeições. Em muitos restaurantes tradicionais, frutas são oferecidas como cortesia aos clientes. Pratos com cerejas ou outras frutas da estação chegam à mesa sem custo adicional, como uma forma de receber bem o visitante.

A mesma tradição aparece nas bebidas. A zivania, uma aguardente típica de Chipre feita a partir de uvas, às vezes é oferecida como cortesia após a refeição.

Chipre é um destino que merece entrar na lista de viajantes que buscam uma experiência mais autêntica no Mediterrâneo: praias de águas cristalinas, boa gastronomia, facilidade de deslocamento e um ritmo ainda mais tranquilo longe das multidões encontradas em outros destinos turísticos.

Fonte: Folha de São Paulo

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