No começo de julho, a paisagem do agreste pernambucano contrariava a imagem manjada de sertão. Em vez de uma sucessão de chão rachado, cactos e plantas ressecadas, havia muito verde e pontos floridos pelo caminho. O calor estava presente, em torno de 30 graus, mas era agradável.
A surpresa ajuda a desmontar uma ideia que Carlos Magno, coordenador executivo do Centro Sabiá, considera persistente. “Quando a gente vai falar do Nordeste, por que só falar da seca?”, questiona. Nascido no sertão da Paraíba e há duas décadas trabalhando em Pernambuco, ele chama atenção para a diversidade de paisagens e expressões culturais do território, de áreas agrícolas e brejos de altitude ao forró, à poesia e à cerâmica.
Caruaru é uma boa porta de entrada para perceber essas camadas. No Alto do Moura, ateliês e casas de artesãos se espalham pelo bairro, reconhecido como o maior centro de artes figurativas da América Latina, segundo a Unesco.
Uma das paradas pode ser o ateliê da mestre Nicinha. Simpática e disposta a apresentar também o trabalho de outros artistas da redondeza, ela ajuda a entender que a visita funciona melhor quando feita sem pressa, entrando de porta em porta. Há peças à venda de diferentes tamanhos e estilos e a chance de encontrar os próprios artesãos trabalhando.
É assim na Casa-Museu Mestre Vitalino, construída pelo ceramista em 1959 e hoje mantida pela família. A neta Emanuela Vitalino pinta peças pela manhã, um dos irmãos trabalha à tarde. Netos e bisnetos continuam a tradição e comercializam trabalhos no local. “A casa representa para a gente uma obra de arte”, resume.
O imóvel é pequeno, mas fica em uma área arborizada e guarda memórias da trajetória de Vitalino. Emanuela conta que o avô, ao se estabelecer no Alto do Moura, chamava moradores para aprender a trabalhar com barro. A prática se espalhou por famílias que passaram a transmitir o ofício aos filhos e netos.
As oficinas abertas ao público não são permanentes. Geralmente, em junho, a família as realiza em parceria com a Fundação de Cultura de Caruaru. No restante do ano, ainda é possível encontrar integrantes da família pintando e produzindo. O movimento se repete pelas ruas do bairro, onde ateliês e lojas funcionam de portas abertas.
Pouco adiante, o Memorial Mestre Luiz Antônio reúne mais de 300 peças do artista, hoje com 91 anos, além de fotografias, documentos e registros de uma exposição no Japão. Luiz Antônio continua trabalhando. Quem visita o espaço pode acompanhar o manuseio do barro e conhecer etapas da modelagem, da queima e da pintura, além de comprar peças diretamente da família. Para o filho Washington, uma das lições transmitidas pelo pai foi aprender a “respeitar o tempo do barro”.
A paisagem muda novamente na Serra dos Cavalos, onde fica o Parque Natural Municipal Professor João Vasconcelos Sobrinho. O local protege um brejo de altitude, enclave de mata atlântica no agreste, que ajuda a desfazer a ideia de uma região ambientalmente uniforme.
Há sete roteiros de caminhada, de cerca de 1 a 12 quilômetros, passando por mirantes, açudes, riachos e trechos de mata. Um dos pontos mais curiosos é a Pedra da Caatinga: sobre um lajedo, mandacarus, facheiros e macambiras formam uma pequena ilha de vegetação característica da caatinga em meio à mata atlântica. Em poucos metros, o contraste resume boa parte da viagem.
Os percursos variam em duração e dificuldade. O parque recebe visitantes de terça a domingo, das 7h às 16h, e as trilhas devem ser iniciadas até as 14h. Vale usar roupas leves, calçado adequado, protetor solar e levar água.
De volta à área urbana, a Feira de Caruaru oferece outra maneira de acompanhar as trocas que moldaram a cidade. Instalado no Parque 18 de Maio, o conjunto reúne 14 feiras, entre elas as de artesanato, ervas, frutas e verduras e a tradicional Feira da Sulanca. A Feira de Caruaru foi registrada pelo Iphan como -patrimônio cultural do Brasil em 2006 e teve o título revalidado em 2021.
O passeio faz uma ponte direta com o Alto do Moura: peças produzidas pelos artesãos circularam historicamente pela feira, que ajudou a projetar trabalhos como os de Mestre Vitalino. É também um lugar para percorrer sem roteiro rígido, entre bancas de comida, utensílios, roupas e artesanato.
Para Magno, porém, conhecer a região pode ir além dos espaços tradicionalmente associados ao turismo. Esse tipo de encontro faz sentido, diz ele, quando as próprias comunidades definem o que querem mostrar e como receber os visitantes. “As pessoas têm que conhecer esse lugar e descolonizar um pouco esse olhar.”
É o que pode acontecer nas comunidades rurais. Em Bom Jardim, a Agroflor reúne agricultores que trabalham com cisternas de placas, sistemas agroflorestais, hortas, pomares, compostagem e criação de animais. A associação não mantém um roteiro turístico regular, mas organiza visitas mediante agendamento prévio.
Nelas, os próprios agricultores explicam como captam e armazenam água, cultivam alimentos e manejam os recursos disponíveis no semiárido. Dependendo da rotina da propriedade, atividades como plantio, colheita, alimentação dos animais e manejo de viveiros também podem integrar a experiência.
É também uma oportunidade de perceber que as soluções encontradas para viver no semiárido fazem parte do conhecimento acumulado pelas famílias. Carlos Magno cita as sementes como exemplo: preservá-las não significa apenas guardá-las, mas continuar plantando e transmitindo de geração em geração o conhecimento sobre como cultivá-las. As cisternas seguem uma lógica semelhante —são tecnologias que os próprios moradores aprendem a construir, manter e reparar.
No início de julho, o calor não impediu os passeios, e a paisagem verde foi talvez a primeira surpresa. A maior descoberta, porém, está em perceber que conhecer o território significa olhar também para quem molda o barro, preserva sementes, guarda água e mantém vivas as formas de criar e permanecer ali.
Serra dos Cavalos
https://conheca.caruaru.pe.gov.br/o-que-fazer/serra-dos-cavalos
Visitação: De terça a domingo, das 7h às 16h (trilhas até às 14h)
Agendamento para trilhas: (81) 99483-4546 (Apenas ligação)
Agroflor
Redes sociais para agendamento: https://www.instagram.com/associacao_agroflor/
Associação dos Agricultores/as Agroecológicos/as de Bom Jardim