Não bastassem o frio e o céu de chumbo, o feriado de 7 de setembro veio com uma pororoca de postagens constrangedoras no Instagram.
Tiozões nostálgicos se uniram a jovens entediados numa corrente fubanga que transforma suas fotos recentes, via inteligência artificial, em personagens teoricamente típicos dos anos 1980. Penteados armados e jaquetas de cores berrantes tomaram conta da rede social.
A cafonália tem ares gringos em demasia, coisa meio “Stranger Things” (série da Netflix que ajudou a emplacar um revival da década de 80 entre os jovens de hoje). A epidemia de laquê, por sorte, pouco excedeu o limite territorial dos Estados Unidos da América.
Quer saber como as coisas realmente foram naquela década?
Vou contar um pouco de minha experiência personalíssima, de adolescente em São Paulo, capital, e restrita ao universo desta coluna: comida.
A carne era dura e o macarrão era mole demais. Passariam algumas décadas até a pecuária brasileira alcançar padrões internacionais de qualidade.
Quanto à massa, só na abertura comercial dos anos 1990 conheceríamos o espaguete italiano que não empapa.
A gente precisava comprar toda a comida do mês no dia do pagamento, por culpa da hiperinflação —que fazia com que os produtos nas gôndolas fossem remarcados em velocidade olímpica. Isso causava filas de horas no supermercado e obrigava as famílias a comprar freezers gigantes que só têm sentido para dono de restaurante ou serial killer.
A especulação resultante da inflação trazia desabastecimento semana sim, semana também. Quando não faltava feijão, precisávamos comprar cerveja uruguaia porque a indústria nacional segurava o estoque.
E, quando tinha comida, podia ser perigoso: em 1986, a Europa desovou aqui leite em pó com suspeita de contaminação pelo acidente nuclear de Tchernóbil (na Ucrânia, em tempos em que era uma das repúblicas soviéticas).
Éramos mais jecas e mais preconceituosos. Restaurante japonês só entrou no roteiro quando os americanos decidiram que era “cool”; até meados dos anos 1980, o paulistano médio tinha nojo de peixe servido cru.
Comida árabe tinha maior aceitação. Indivíduos de ascendência libanesa e síria, contudo, eram jocosamente chamados de turcos —gentílico constante nos passaportes emitidos pelo invasor otomano aos emigrantes.
Por fim, fiquem com um receita de sobremesa de abacaxi que achei anotada em um caderno de receitas daquela época na casa da minha mãe.
Não reclame do pó de pudim: era assim em todas as casas na década de 1980.
Pudim de abacaxi
Rendimento: 1 pudim grande
Tempo de preparo: 3 horas e 30 minutos
Dificuldade: Fácil
Ingredientes
- ½ copo
- de água
- 1 ½ copos
- de açúcar
- 1 colher (sopa)
- de maisena
- 1 pacote de
- pudim sabor
- baunilha
- 1 lata de leite
- condensado
- ½ lata de
- creme de leite
- 1 abacaxi picado
Modo de preparo
- Em uma tigela, junte o abacaxi picado, a água e o açúcar
- Deixe a mistura macerar por aproximadamente 3 horas
- Coe o líquido numa panela (descarte os sólidos)
- Ferva o caldo e junte a maisena e o pó de pudim. Misture até começar a encorpar
- Retire do fogo e junte o leite condensado e o creme
- Transfira para uma vasilha e guarde na geladeira até firmar (ou até a hora de servir)
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