João Henrique Caparroz Gomes

Advogado especialista em Agronegócio e sócio fundador do escritório JHC ADV AGRO

João Henrique Caparroz Gomes

Advogado especialista em Agronegócio e sócio fundador do escritório JHC ADV AGRO

Dentro e fora da porteira: inadimplência no campo expõe desafios econômicos, climáticos e estruturais

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Alta dos juros, restrição ao crédito, margens de lucro reduzidas e eventos climáticos extremos formam um cenário de pressão crescente sobre o produtor rural brasileiro.

E então, a inadimplência no agronegócio nacional vem crescendo e acende um alerta para a situação financeira de milhares de produtores rurais. Embora fatores climáticos tenham impacto significativo sobre a atividade a dificuldade enfrentada pelo setor é resultado da combinação de diversos elementos econômicos e estruturais.

Entre os principais fatores estão a elevação do custo do crédito, a redução da oferta de financiamento, o aumento dos custos de produção e a queda da rentabilidade em importantes cadeias do agronegócio.

Rentabilidade menor e crédito mais caro. Nos últimos anos, muitos produtores realizaram investimentos para ampliar ou modernizar suas propriedades, impulsionados por um período de maior rentabilidade observado em diversas culturas e atividades pecuárias.

Com a mudança do cenário econômico, o custo do financiamento aumentou e o acesso ao crédito tornou-se mais restrito. Ao mesmo tempo, as margens de lucro diminuíram, reduzindo a capacidade de geração de caixa das propriedades.

Esse conjunto de fatores tornou mais difícil o cumprimento dos compromissos financeiros assumidos anteriormente.

A diversificação nem sempre reduz os riscos. É comum que produtores rurais diversifiquem suas atividades, conciliando culturas como soja e milho com pecuária, produção de leite, aves ou outras atividades agropecuárias.

No entanto, quando diferentes segmentos enfrentam simultaneamente redução de rentabilidade, essa estratégia perde parte de sua capacidade de compensar perdas, aumentando a vulnerabilidade financeira das propriedades.

O clima continua sendo um fator decisivo. Além das variáveis econômicas, o ambiente permanece como um dos maiores desafios da produção rural.

A seca registrada entre as safras de 2023 e 2024 atingiu diferentes regiões do país com intensidades variadas. Em alguns casos, produtores que possuíam propriedades em localidades distintas conseguiram equilibrar parte das perdas. Já aqueles com produção concentrada em regiões severamente afetadas enfrentaram impactos mais significativos sobre a produtividade e a receita.

Outra questão trata-se do seguro rural que ainda enfrenta limitações. Ele é apontado como uma ferramenta importante para reduzir riscos, mas sua utilização ainda é considerada limitada.

Entre os principais desafios estão o custo das apólices, a burocracia para acionamento das coberturas, a complexidade dos contratos e o tempo necessário para análise dos pedidos de indenização.

Seria necessária a ampliação da cobertura do seguro rural como forma de aumentar a proteção da atividade agropecuária diante de eventos climáticos extremos.

Mais um ponto alarmante frequentemente debatido pelo setor: o ambiente tributário brasileiro.

A elevada complexidade do sistema tributário e os custos da atividade industrial dificultam investimentos em segmentos estratégicos, como a produção nacional de fertilizantes, mantendo o país dependente das importações.

Fatores como custos de energia, carga tributária e ambiente regulatório influenciam a decisão de empresas sobre a localização de novos investimentos.

Uma das propostas discutidas por especialistas é a criação de um fundo permanente voltado à gestão de riscos da atividade agropecuária. A ideia consiste na formação de uma reserva financeira destinada ao enfrentamento de perdas decorrentes de eventos climáticos severos ou outras crises que afetem a produção rural. O mecanismo permitiria maior previsibilidade e segurança para o setor, especialmente em períodos de maior instabilidade.

E então podemos afirmar desafios para o futuro: a situação do produtor rural evidencia que a sustentabilidade econômica da atividade depende de um conjunto de fatores que vai além da produtividade no campo.

A ampliação do acesso ao crédito, o fortalecimento do seguro rural, políticas de gestão de riscos, investimentos em infraestrutura e um ambiente de negócios mais competitivo aparecem entre os principais desafios para garantir maior estabilidade ao agronegócio brasileiro, um dos pilares da economia nacional.

  • João Henrique Caparroz Gomes (é advogado e sócio fundador do escritório JHC ADV AGRO e consultor jurídico há mais de 20 anos. É especialista em Direito do Agronegócio)

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