
DOUGLAS GAVRAS
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – alistas já vêm apontando os efeitos que o El Niño pode causar no plantio de grãos como soja e milho e dificuldades na pecuária, em um cenário desafiador de juros altos e alta de custos, como o que ocorre atualmente no Brasil.
Um relatório publicado na terça-feira (28) pela XP Investimentos aponta os efeitos do fenômeno climático em diferentes setores que poderiam ir além do aumento da inflação de alimentos. A pressão poderia ocorrer também na geração de energia, no transporte e no varejo.
O governo federal já identificou riscos de quebra das safras de arroz e milho devido ao El Niño e se prepara para ativar usinas termelétricas para compensar a possível redução na produção de hidrelétricas. O custo das medidas será de cerca de R$ 1,3 bilhão.
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Veja setores em que o El Niño deve causar um impacto maior:
ALIMENTOS E BEBIDAS
Os economistas ponderam que as implicações para a inflação de alimentos no Brasil com o El Niño são importantes, mas não devem ser superestimadas. Os analistas esperam que a inflação de alimentos in natura poderia atingir um pico de cerca de 20% no segundo trimestre de 2027, antes de cair para cerca de 5% até o fim de 2028.
Para 2026, o fenômeno pode implicar um acréscimo de 0,35 ponto percentual de alta no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), sendo 2,3 p.p. em alimentação no domicílio.
Para 2027, há incertezas devido ao risco nos preços de hortifrutis, incorporando 0,15 p.p. de efeito, o que resulta em 1,0 p.p. em alimentação no domicílio.
Segundo os economistas, o impacto dependerá das condições macroeconômicas, como a taxa de câmbio e os preços de diesel e fertilizantes. Esses fatores têm, em episódios passados, superado o efeito climático.
Além disso, a reversão de preços após o pico do El Niño raramente ocorre de forma clara, já que a inflação de alimentação continuou subindo na maioria dos casos.
“Do lado da atividade econômica, o El Niño tende a impactar os resultados do PIB da Agropecuária. A
expectativa de alta intensidade do fenômeno climático deve derrubar a produtividade das principais safras do Brasil”, diz o relatório. Segundo os cálculos, a produtividade média das culturas agrícolas pode declinar cerca de 3% em comparação a um cenário sem anomalia climática.
ENERGIA
De acordo com os analistas, o setor de energia costuma ser um dos pontos mais afetados pelo fenômeno climático. O impacto inclui geração de energia, demanda, níveis dos reservatórios das hidrelétricas e preços.
Os autores relembram que em 2015-16, o El Niño afetou a recuperação dos reservatórios e levou à queda dos preços spot (de curto prazo) -e uma situação semelhante é esperada para 2026.
Mais altas temperaturas durante o El Niño resultam em maior consumo, já que o uso de ar-condicionado aumenta. Como a demanda de energia foi baixa em junho, com temperaturas abaixo da média, os analistas sugerem que há risco de alta para os preços no terceiro e quarto trimestres de 2026.
No segundo semestre de 2026, o El Niño pode alterar a dinâmica das chuvas, já que o fenômeno tende a provocar chuvas durante a estação seca, o que beneficia a geração no submercado Sudeste/Centro-Oeste de energia. Os especialistas lembram que, historicamente, a quantidade de energia armazenada, e não a intensidade do fenômeno, é o que determina os preços.
Com armazenamentos acima da média, as condições atuais indicam que os preços deverão sofrer pressão no terceiro e quarto trimestres de 2026, aponta o relatório.
VAREJO E TRANSPORTES
Para o varejo, o impacto esperado é médio, como um reflexo dos efeitos da inflação de alimentos, que reduz o consumo de outros itens.
“Safras menores devem reduzir a oferta, enquanto insumos mais caros devem pressionar ainda mais as commodities agrícolas, com o repasse mais rápido aparecendo em produtos frescos e itens mais expostos a fertilizantes e petróleo, como carne, laticínios, panificados e óleos comestíveis”, aponta o relatório.
Eles ponderam que o fenômeno climático pode favorecer os varejistas de vestuário, considerando-se que um inverno mais curto pode impedir uma transição mais brusca nos preços das coleções de primavera/verão.
O clima mais seco na região Norte também ameaça a navegabilidade dos rios. A XP ainda aponta a exposição de empresas de transporte às potenciais implicações do efeito climático para as safras de soja e milho.
FINANCEIRO
Carteiras com investimentos no campo concentrados em pecuária, milho e soja estão expostas a ciclos de commodities, variações de câmbio e choques climáticos. Essa exposição aumenta a vulnerabilidade a eventos, alertam os analistas.
A depender do nível de exposição do banco, o El Niño pode adicionar riscos significativos, afetando a volatilidade da produção agrícola e pressionando o fluxo de caixa dos produtores, que já enfrentam margens baixas.
Alimentos mais sensíveis ao El Niño
1º – Tubérculos, raízes e legumes
2º – Hortaliças e verduras
3º – Frutas
4º – Cereais, leguminosas e oleaginosas
5º – Pescados
6º – Açúcares e derivados
7º – Óleos e gorduras
8º – Aves e ovos
9º – Carnes
10º – Sal e condimentos
Fonte: XP Investimentos
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